O Grupo Maria Cutia de Teatro encena a peça 'O auto da Compadecida' com direção de Gabriel Villela — Foto: Tati Motta / Divulgação
♫ CRÍTICA DE COMÉDIA MUSICAL DE TEATRO
Título: O Auto da Compadecida
Texto: Ariano Suassuna
Direção: Gabriel Villela
Elenco: Grupo Maria Cutia de Teatro
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Em 1955, quando Ariano Suassuna (1927 – 2014) escreveu “O auto da Compadecida”, peça mais famosa da obra teatral do escritor paraibano, Caetano Veloso, Sérgio Sampaio (1947 – 1994), Roberto Carlos e Zeca Baleiro eram quase todos adolescentes (Baleiro nem era nascido) e nem imaginavam que, anos depois, se firmariam como cantores e compositores de música popular brasileira.
Quem costura a dramaturgia de “O auto da Compadecida” com os sucessos de Caetano Veloso, Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Zeca Baleiro é Gabriel Villela, extraordinário diretor mineiro que, na primeira parceria com o conterrâneo grupo Maria Cutia, acentua a mordacidade do texto de Suassuna com evocações do cenário político da atualidade enquanto carnavaliza a cena com o canto de músicas como a marcha “Alegria alegria” (Caetano Veloso, 1967), “Tropicália” (Caetano Veloso, 1968) – com pequenas alterações na letra para aludir à personagem-título Nossa Senhora Compadecida (Mariana Arruda) – e a marcha “Eu quero é botar meu bloco na rua” (Sérgio Sampaio, 1972), esta cantada na abertura e no fecho folião do espetáculo, com o público indo atrás dos atores como se seguisse um bloco.
Com as cores e a estética visual barroca característica das encenações de Gabriel Villela, o Grupo Maria Cutia de Teatro se agiganta na cena tropicalista em que sete atores – Leonardo Rocha (João Grilo), Hugo da Silva (Chicó e Severino do Aracaju), Mariana Arruda (Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida), Dê Jota Torres (Palhaço, Padeiro e Manuel – Nosso Senhor Jesus Cristo), Thiago Queiroz (Sacristão), Marcelo Veronez (Padre João e o Diabo) e Polyana Horta (Antônio Morais e o Bispo) – se revezam com habilidade na interpretação dos 13 personagens do auto de Suassuna.
Estreada em 2019 na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto (SP), a montagem de “O auto da Compadecida” é encantadora e segue viva após seis anos em cartaz por festivais de diversas regiões do Brasil. Em estado de graça, o elenco valoriza a cena, o texto (ainda atual diante da notória hipocrisia nacional) e as músicas.
O baioque de Baleiro tem verve que se afina com o espírito crítico da obra de Suassuna, cuja picardia é realçada pela direção de Gabriel Villela nesse encontro extremamente feliz do encenador com o Grupo Maria Cutia de Teatro.