O clamor pela moderação
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O clamor pela moderação

Uma parte do agronegócio está resistindo a aderir à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, informou reportagem do Estadão/Broadcast, com base em conversas com parlamentares e representantes do setor. Apesar do impulso recente do filho “zero um” de Jair Bolsonaro nas pesquisas, a expectativa de alguns integrantes do agro ainda repousa sobre um nome mais moderado da centro-direita. Originalmente visto como pilar do bolsonarismo, o segmento parece que ainda não fechou inteiramente com o candidato bolsonarista. Acostumado a avaliar riscos, o agro sabe que eleição não é ato de fé.

É evidente que, para esse setor, como para qualquer um de bom senso, o importante é impedir que Luiz Inácio Lula da Silva fique mais quatro anos no poder. Num horizonte mais amplo, porém, somente a derrota de Lula não basta para entregar a almejada prosperidade do País, sobretudo se o vencedor da eleição for alguém movido a revanchismo, mais interessado em livrar o pai da cadeia e anistiar golpistas do que em conduzir o País no caminho das reformas e da reconciliação.

O que vale para o agronegócio vale também para todo segmento que se mostra cansado tanto dos longos anos de Lula no poder quanto da polarização raivosa entre o bolsonarismo e o lulopetismo. Esses dois polos turvaram o debate público, converteram adversários em inimigos e inibiram alternativas. Hoje, segundo a Quaest, cerca de 30% dos brasileiros se dizem independentes, não querem nem Lula nem os Bolsonaros. Há, ainda, 14% enquadrados como esquerda não-lulista e 21% como direita não-bolsonarista. É um contingente expressivo demais para ser ignorado. Há vida possível fora da trincheira.

O sobrenome Bolsonaro carrega feitos, mas também conflitos, crises institucionais e processos judiciais. Carrega, sobretudo, um projeto que terminou em tentativa de golpe. É ilusório imaginar que bastaria suavizar o discurso ou revestir a candidatura de racionalidade administrativa, ainda apresentada de forma vaga, para neutralizar esse peso.

De Lula, o Brasil já sabe: ele vai para mais uma eleição movido pela preservação do poder em si mesmo. Um eventual quarto mandato tenderá a repetir o governo medíocre de sempre, adornado por populismo, medidas de curto prazo, baixa ambição e descuido fiscal. No essencial, será o exercício da vaidade de quem se crê insubstituível.

O cauteloso agronegócio e outros segmentos, liberais, democráticos, conservadores ou progressistas independentes, sabem que governabilidade exige previsibilidade. Sabem que aventuras personalistas custam caro. E que um governo orientado por perdão a golpistas, revanches e conflitos familiares tem potencial para produzir turbulência institucional e econômica. Também reconhecem que o lulopetismo não oferece respostas estruturais aos desafios que se avizinham.

Entre um projeto esgotado e outro que nasce sob suspeita, o País não pode permanecer aprisionado a movimentos que tantos danos já causaram. Tampouco deve aceitar a falsa dicotomia segundo a qual qualquer competitividade nas pesquisas autoriza rendição antecipada a um sobrenome. Sondagens registram o momento, não decretam o futuro. A campanha mal começou a ser pensada. Há alternativas e tempo – curto, mas real – para viabilizá-las.