Opinião | Ninguém acusa
otros

Opinião | Ninguém acusa

Em 1894, o capitão do Exército francês Alfred Dreyfus foi preso sob a acusação de traição à pátria. O oficial foi acusado da venda de informações secretas ao Exército alemão, julgado e condenado por unanimidade num processo que durou apenas três dias. A humilhação também se estendeu numa cerimônia pública, na qual Dreyfus perdeu suas insígnias militares. Não havia qualquer prova que ligasse o acusado ao crime, apenas uma motivação: Alfred Dreyfus era judeu, justamente o judeu que havia alcançado a maior patente no Exército francês desde que lhes foi permitido ser oficiais. Justamente a França, o primeiro país a conceder cidadania plena a judeus na esteira da revolução um século antes, agora condenava um judeu à traição somente por ser judeu. No entanto, nem todos os franceses foram cúmplices de tal perversidade.

Em 1898, quatro anos após a infame condenação, o escritor Émile Zola, um dos expoentes do naturalismo e autor de Germinal, publicou uma carta aberta no jornal L’Aurore, intitulada J’accuse (em português, Eu acuso). Nesse artigo, Zola saiu em defesa da inocência de Dreyfus e acusava o Exército francês de fraude judicial, mesmo após as investigações apontarem claramente para a inocência do capitão. Zola era um importante intelectual de esquerda e sua militância foi primordial para que o processo fosse revisto e Dreyfus fosse libertado. Setores progressistas da sociedade francesa se manifestaram ativamente a favor de sua libertação, enfrentando no campo das ideias as alas nacionalistas da direita francesa, sobretudo os monarquistas. Dreyfus morreu em liberdade, mas jamais deixou de ser ofendido nas ruas por franceses ressentidos e humilhados por suas convicções chauvinistas e antissemitas terem sido contrariadas pela verdade.

Sob a ótica nacionalista francesa do final do século 19, não era exatamente uma surpresa que um judeu fosse tido como suspeito número um de uma traição à pátria. Os cem anos de emancipação não apagavam as centenas de séculos de acusações e perseguições aos judeus, fosse por motivação religiosa (deicídio) ou por tramas malignas (libelo de sangue). O advento da modernidade e do nacionalismo, por sua vez, trouxeram uma nova acusação antissemita: a do judeu apátrida, conspirador e fiel somente a si mesmo. A obra mais célebre da literatura antissemita moderna é intitulada de Os Protocolos dos Sábios de Sião. Trata-se de um falso livro de protocolos, atribuído a judeus poderosos, que teriam sido traçados num congresso secreto na Basileia em 1898 (justamente um ano após o acontecimento do primeiro Congresso Sionista, na mesma cidade) a fim de traçar seus planos de destruição da sociedade ocidental e sua substituição por um “poder judeu”. O panfleto influenciou outras produções antissemitas de estilo semelhante, como O judeu internacional, de Henry Ford, e foi amplamente utilizado pela propaganda nazista.

Acusações de conspiração internacional jamais desapareceram do lexicon judeofóbico. O surgimento do Estado de Israel abriu uma gama de possibilidades de roteiros conspiratórios em grupos antissemitas, sobretudo após 1973, quando se viu o fortalecimento das relações entre o Estado judeu e os EUA. O lobby judaico (ou sionista) passou a receber uma função central em tais teorias, sem que jamais fossem esquecidos os velhos vilões de outrora, como a família Rothschild (eventualmente substituída por George Soros, ou outro bilionário judeu – não necessariamente um banqueiro ou financista).

Recentemente nos deparamos com uma manifestação conspiracionista, em vídeos publicados pelo sociólogo Jessé Souza nas suas redes sociais. O intelectual acusou o lobby judeu (depois corrigiu para sionista, e posteriormente apagou o vídeo), a família Rothschild e o Estado de Israel de estarem envolvidos numa trama na qual o vil bilionário pervertidamente criminoso Jeffrey Epstein coagiria figurões e líderes globais, para que esses não se opusessem ao massacre de crianças palestinas pelo Estado judeu. Sem apresentar qualquer prova, Jessé Souza sustentou a existência de uma conspiração envolvendo um bilionário pedófilo judeu, uma família centenária de banqueiros judeus e um famigerado lobby judaico (ou sionista) aos crimes mais deploráveis e perversos envolvendo crianças, em uma espécie de manipulação global. Assim como na França, em 1894, não são necessárias as provas.