Margarida Salomão (PT) admite que não havia recursos estaduais para obras de infraestrutura, mas diz celebra apoio do governo do estado nas ações emergenciais
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GERADO EM: 26/02/2026 - 19:16
Chuvas em MG: 59 mortos e resgate emocionante de cãozinho traz esperança
Chuvas em Minas Gerais causaram 59 mortes, com 15 pessoas ainda desaparecidas. Em Juiz de Fora, o resgate emocionante de um cãozinho, Pumba, dos escombros trouxe esperança em meio à tragédia. Desde o início das operações, os bombeiros atenderam 82 ocorrências de soterramento, salvando 239 pessoas. Mais de 5,5 mil estão desalojados após os temporais.
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Na segunda-feira (23), por volta das 20h, a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), deixou a sede da administração para a sua casa. No momento, a chuva era intensa, mas ainda se acreditava que não excederia o habitual de tempestades de verão. Poucas horas depois, porém, à medida que o temporal recrudescia, ela retornou. Às 2h daquela madrugada, já era publicado o decreto de calamidade pública no município, que contabiliza, até aqui, 53 mortes em decorrência dos deslizamentos e enchentes.
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Três dias depois da tragédia, Margarida diz que ainda não é possível dimensionar exatamente o tamanho do impacto, mas já existe a certeza de que o trabalho a ser feito em algumas áreas é de, literalmente, reconstrução. Em seu segundo mandato, ela compara o desafio apenas ao período da pandemia, e promete obras de recuperação e estabilização de encostas, além de apostar em recursos federais para programas de habitação a moradores de locais condenados.
Apesar de admitir que não houve repasse de recursos estaduais para infraestrutura relacionada a prevenção de enchentes e deslizamentos - como mostrou O GLOBO, a gestão Romeu Zema (NOVO) reduziu em 96% esse orçamento em dois anos - Margarida elogia o apoio emergencial do governo estadual nas ações de resposta e diz que vai precisar de mais dinheiro da União. Em relação ao enfrentamento das mudanças climáticas, que vêm intensificando os eventos extremos, como o de agora, a prefeita diz que é preciso ter soluções de engenharia mais sofisticadas, além de investimentos em monitoramento ambiental e de Defesa Civil.
Como foram os primeiros momentos durante a tempestade de segunda?
Segunda-feira eu fui para casa, umas 20h30, estava chovendo forte. Mas aí a chuva recrudesceu de tal modo que eu falei: "Eu quero voltar para cá, eu vou voltar para cá". Foi quando nós descobrimos a deslizamento dos nove prédios, os nove edifícios, e logo decretamos o estado de calamidade pública. A chuva foi totalmente imprevisível. Foi tão forte que houve um movimento interessante, de solidariedade entre prefeitos que conhecem esse sofrimento. A quantidade de mensagem que eu estou recebendo de colegas oferecendo a Defesa Civil, recursos técnicos, fazendo doações, uma coisa impressionante.
Ainda é cedo para dimensionar todos os estragos, mas o que já se tem certeza?
O presidente Lula ontem (quarta) me ligou e me perguntou quanto que precisa para reconstruir a cidade. Respondi que nós estamos, nesse momento, recolhendo os cacos, defendendo as vidas. Nesse momento, a minha prioridade absoluta é evitar que mais alguém morra. Mas, ao mesmo tempo, nós estamos estudos e fazendo avaliação. Não é nada simples. Nessa altura, eu tenho claro clareza de que nós vamos ter que fazer uma intervenção bastante ambiciosa em muitos lugares da cidade, com contenções, recomposição de vias. É uma situação de fato de reconstrução da cidade, chega nesse nível em muitas áreas, um grande esforço de reconstrução. Ainda estamos atendemos a emergências muito agudas, mas eu espero, na semana que vem, já ter um quadro para dizer exatamente o que que nós vamos fazer.
A chuva aliás voltou a atacar a cidade na quarta, quando houve novos deslizamentos
A chuva de quarta afetou setores que, embora precários, não tinham desmanchado. Como o caso do bairro Jardim Natal, onde tivemos que retirar as pessoas todas. Então divido a peça em dois atos, a chuva de segunda-feira e a chuva de ontem (quarta). A de ontem foi aterrorizante, mas perto de segunda... Mas eu quero afirmar que ninguém vai ficar para trás.
A resposta do município foi adequada?
A cidade é muito organizada. Então, na verdade, essa desgraça que nos ocorreu, não nos desorganizou. Nos abalou. Eu estou profundamente angustiada. É uma uma situação sobre a qual não tem nenhuma governabilidade, mas a cidade é organizada. Então, nós reagimos muito bem do ponto de vista da assistência social, do ponto de vista de recebimento da ajuda humanitária para poder redistribuir as pessoas que estão necessitadas. A nossa Defesa Civil é muito articulada, com vários tipos de profissionais trabalhando.
Nessa semana, o coordenador da Defesa Civil estadual afirmou que um problema enfrentado é o retorno de moradores às áreas de risco. Como evitar isso?
Nós estamos trabalhando de forma muito integrada. As forças do Estado, da Defesa Civil do Estado, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, a nossa Defesa Civil, a Guarda Municipal, toda a estrutura da prefeitura de assistência social, toda a estrutura da prefeitura de ação comunitária, de atendimento ao público, de fiscalização, está todo mundo trabalhando. Fora os serviços operacionais de limpeza de remoção de escombros, de desobstrução de vias. É um trabalho gigantesco que vai sendo feito e que requer de nós muito pouco sono, muita vigília para que a gente possa coordenar o trabalho tão desafiador e tão doloroso. Porque você está fazendo isso passando por cima da destruição de muitos sonhos e de vidas humanas.
A integração está funcionando agora, mas O GLOBO revelou que o governo estadual reduziu em 96% o orçamento de ações para resposta a desastres. Faltou apoio dos outros entes para a prevenção?
Do ponto de vista federal, nós tivemos aqui em injeção de recursos fortes para a infraestrutura. Só na área de macrodrenagem, vai a R$ 353 milhões. No caso do Estado, o recurso não veio para infraestrutura urbana, não tem nenhum programa do Estado nesse sentido. Mas quando se fala da redução do recurso para prevenção, eu acho que na verdade nós temos uma leitura insuficiente das leis orçamentárias. Se você for olhar os recursos da Defesa Civil do Estado, eles têm, por exemplo, R$ 14 milhões de reais para um centro de monitoramento, e isso não está naquela rubrica. Então tem outros recursos disponibilizados. Além do pessoal, que é o mais caro de tudo. Agora nós vão pedir mais dinheiro, é lógico, porque vai precisar de muito mais.
Juiz de Fora é 9ª cidade do país com maior população em áreas de risco, o que atinge cerca de 24% dos seus moradores, como resolver isso?
Lugares que estão agora passando por esse processo de desmanche são áreas a ocupadas há 40 anos, 60 anos. A cidade toda é edificada em costas ou em várzeas de rios. E a cidade sempre se defendeu, então, você vai encontrar quantidade grande de contenções de encostas, drenagens. Você vive esse desafio.
Estamos buscando recursos muito volumosos do PAC, do BNDES para permitir que as pessoas fiquem em suas residências, tornando as áreas sustentáveis, garantir que as pessoas tenham direito às suas vidas. Agora, há lugares que realmente é impossível e vai levar a uma necessidade de relocação de residências. Aí é um momento em que nós vamos ter que ter recursos para programas habitacionais. Mas grande parte dos recursos com os quais eu hoje conto são para garantir que essas áreas ocupadas sejam ocupadas de forma sustentável.
Com as mudanças climáticas, os eventos extremos estão se tornando mais intensos e frequentes. Como proteger a cidade nesse cenário?
Nós vamos precisar de muita inteligência, muita tecnologia e muita determinação. Esses projetos, por exemplo, que eu estou contratando do PAC são todos projetos extremamente sofisticados. Por exemplo de macrodrenagem, que são coisas diferentes do que se fazia na década de 70, quando se canalizava córrego. Hoje, córrego canalizado é uma ameaça. Então preciso de soluções de engenharia muito mais sofisticadas do que no passado, com tecnologia. E em segundo lugar, eu tenho que ter o monitoramento ambiental, e monitoramento territorializado dessas situações de uma forma muito meticulosa e precisa. Tenho na cidade hoje 500 câmeras. A Defesa Civil está nos lugares que a gente já sabe que são mais críticos, de segurança. Então está tudo articulado. Acho que você vai ter que ter soluções de governança e soluções de engenharia que são tecnologicamente mais avançadas e sempre com a participação da sociedade. É um desafio imenso, mas que eu acho que nós conseguiremos superar e vencer.
Por fim, como é planejar todas essas ações e ainda assim ver que a chuva permanece nessa semana?
Eu como pessoa, fico muito triste. Porque eu sei que isso causa a desorganização da vida de tantas pessoas. Estamos machucados, mas nós temos que cicatrizar para seguir adiante.