Em meio à tentativa de distração e conforto, os acolhidos no local compartilham a angústia de não saberem quando, ou se, poderão voltar para suas casas
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GERADO EM: 27/02/2026 - 22:50
Deslizamentos em Juiz de Fora: Mais de 4.200 Desabrigados e Incerteza Persistente
Cinco dias após deslizamentos em Juiz de Fora, mais de 4.200 pessoas estão desabrigadas, abrigadas em escolas municipais transformadas em refúgios provisórios. Famílias recebem alimentação, apoio psicológico e social, mas vivem a incerteza do retorno às suas casas. Voluntários oferecem ajuda, enquanto moradores buscam soluções permanentes diante da devastação.
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Cinco dias após os deslizamentos que assolaram Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, mais de 4 mil pessoas permanecem desabrigadas ou desalojadas na cidade. Boa parte desse contingente está distribuída entre as 18 escolas municipais que, diante das dimensões da tragédia, transformaram-se provisoriamente em abrigos. Pelas salas de aula e outros espaços compartilhados, famílias inteiras dormem em colchões espalhados, recebem cinco refeições por dia e atendimentos psicológicos, médicos e de assistência social, bem como atividades de lazer. Em meio à tentativa de distração e conforto, porém, os acolhidos no local compartilham, além da dor da perda de vizinhos, amigos e até parentes, a angústia de não saberem quando, ou se, poderão voltar para as suas casas.
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Na Escola Municipal Paulo Rogério, no bairro Monte Castelo, havia 53 pessoas na tarde desta sexta-feira, o limite do espaço. Além da estrutura improvisada para dormitórios, o colégio recebeu remédios da Unidade Básica de Saúde e conta com a ajuda de dezenas de voluntários, entre pessoas que se apresentam espontaneamente e professores da rede. Nos abrigos, há ainda serviço de segunda via de documentos, para repor o que foi perdido, e atualização de vacinação e de cadastros para benefícios sociais.
Enquanto crianças brincavam, e mulheres faziam unha e cabelo pelas mãos de voluntários, alguns buscavam informações sobre casas disponíveis para aluguel.
— Não sei se poderemos voltar. Minha casa não foi diretamente afetada, mas outras no entorno caíram, então acho que não vai dar — conta, em lágrimas, Juliana Cristine, de 42 anos. — A assistência aqui é ótima. As crianças brincam e não têm nem tempo para ficar com fome. Mas é muito difícil, já chorei, conversei com psicólogo. Minha vida toda foi naquela casa, meus filhos nasceram todos lá. Está complicado dormir, porque não temos noção do que vai acontecer.
Cristine é uma das diversas moradoras da comunidade Esplanada, que foi quase totalmente esvaziada após o temporal. Ela deixou às presas o lar onde vivia desde que nasceu e, por determinação da Defesa Civil, seguiu para a escola na quarta-feira junto com o marido, três filhas e três netas.
Sem respostas definitivas, ela busca um novo imóvel. Mas a oferta é curta e, quando surge um endereço compatível, falta dinheiro para a caução. A maior cobrança é por um posicionamento oficial das autoridades, seja sobre vistoria da casa ou a oferta de auxílios. Ao longo da semana, seu marido seguiu o trabalho como auxiliar de caminhoneiro, enquanto ela tenta manter o cuidado da família:
— Sou o auxílio da minha filha mais velha, principalmente para ajudar a cuidar das crianças dela. Mas no momento ninguém é meu auxílio.
Na sala, 12 da mesma família
Na sala, 12 da mesma família
Em outra sala do colégio, estão 12 pessoas da mesma família. Jerônimo Batista Santos, de 30 anos, é uma delas, ao lado da esposa e três filhos. Ele conta que só descobriu sobre a magnitude da tragédia na madrugada de segunda para terça, pois durante o trabalho como auxiliar de galpão em um supermercado não é autorizado a acessar o celular:
— Quando saí, foi aquela correria. Todo mundo tentando descobrir o que fazer.
Ele mora na parte alta da Esplanada, e a casa abaixo da dele trincou paredes. De imediato, Jerônimo levou a família para a residência da mãe, e no dia seguinte a Defesa Civil interditou toda a área. Na quinta-feira, porém, o endereço materno também foi vetado pelas autoridades, o que obrigou que todos seguissem para o abrigo improvisado, onde já estavam a sogra e cunhadas. Um dos filhos, Antony Gabriel, é aluno do colégio, o que facilitou a convivência no local.
— Não é como a casa da gente, mas fomos muito bem recebidos. Agora a preocupação é sobre nossa casa, saber se vai poder voltar ou não — explica. — Os móveis e eletrodomésticos continuaram lá, só viemos com roupa. Estou em uma sinuca de bico, sem saber para onde vou. Gostaria de voltar, mas o medo de deslizamento é muito. Chuva assim eu nunca tinha vivido... A gente vê tanto na televisão, mas nunca acha que vai acontecer conosco. Eu não sabia que corria esse risco.
A autônoma Milena da Silva Ferreira, de 28 anos, já conta com a certeza da interdição definitiva de sua casa, também na Esplanada. No colégio, ela está com dois filhos, o pai e um irmão, além de outros parentes e conhecidos — um alento no momento de dificuldade.
— Minha casa está toda rachada, estalando. Não vai dar para voltar, então estou procurando — conta Milena, nascida na comunidade e, assim como os vizinhos, mais uma a garantir que jamais imaginou vivenciar uma tragédia assim. — Bem material é o de menos, o que importa é a vida da gente, ainda mais com criança. Minha ideia é achar uma casa mais segura, mas na própria Esplanada. Vou correr atrás e recomeçar do zero.
Além da Esplanada, a escola também recebeu moradores dos bairros Carlos Chagas, Monte Castelo e Cerâmica. Luciana Mariana de Paula, de 36 anos, vive no primeiro deles, mas precisou se alojar no colégio com seu marido e três filhos após a queda de um muro sobre sua casa. Ela agora já decidiu que vai procurar outro lar — dessa vez, mais atenta sobre possíveis áreas de risco.
— Na hora que o muro caiu tremeu tudo, foi um susto. Ficamos a noite toda acordados, e pela manhã viemos para cá. Só pegamos umas roupas — narra Luciana. — Não falaram sobre retorno, mas acho que vamos ficar muito tempo fora. Ainda é tudo muito incerto.
‘Um pouco de humanidade’
‘Um pouco de humanidade’
Uma das voluntárias que atua no local é Bel Garcia. A psicóloga tem o hábito de realizar ações sociais e lançou uma campanha de arrecadação para comprar mantimentos e bens para os desabrigados. O dia “do cabelo e da unha”, realizado na sexta-feira, foi ideia dela. No fim de semana, haverá apresentações musicais.
— Minha ideia é trazer um pouquinho de humanidade e de carinho para essas pessoas — explica a psicóloga, destacando que o nível de reconstrução dos bairros mais afetados ainda não está claro. — É como se não houvesse amanhã. A falta de perspectiva é absurdamente desesperadora.
Diretora da Escola Paulo Rogério, Tatiane do Carmo Fernandes frisa que era impossível estar totalmente preparada para um acontecimento tão inesperado. Ainda assim, ela celebra as ajudas diversas que vem recebendo, com muitas doações, e até brinca que o celular não para de tocar.
— Nós realizamos um acolhimento com cuidado. Não é só um lugar em que estamos colocando as pessoas. A gente está dando o mínimo de dedicação, carinho, atenção e infraestrutura. A gente precisa oferecer mais.
Na sexta, as buscas dos bombeiros continuavam em diferentes pontos de Juiz de Fora e da vizinha Ubá. O balanço mais recente, divulgado pela Defesa Civil, era de 69 mortos e quatro ainda desaparecidos nas duas cidades.