Suspeitas de militarização antecedem chegada dos aiatolás, e descobertas nos últimos anos minaram confiança internacional com Teerã
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GERADO EM: 28/02/2026 - 09:38
Evolução e Tensão: O Programa Nuclear do Irã e o Cenário Geopolítico Atual
O artigo aborda a complexa questão do programa nuclear iraniano, suas origens e desafios geopolíticos. Desde o apoio inicial dos EUA nos anos 1950, o Irã desenvolveu capacidades nucleares, gerando suspeitas internacionais, especialmente após a ruptura do acordo nuclear por Trump em 2018. A tensão persiste, com sanções e ameaças de ataques, enquanto o Irã defende seu direito ao desenvolvimento nuclear pacífico, negando intenções militares.
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Quase oito anos depois de rasgar o mais conciso acordo sobre o programa nuclear do Irã, acusando o texto de ser “o pior da História”, o desejo do presidente dos EUA, Donald Trump, de obter um novo acerto, agora em seus termos, criou uma das maiores crises de segurança no Oriente Médio desde a Guerra do Iraque, em 2003, e abriu caminho para os ataque deste sábado. O republicano acusa Teerã de buscar uma bomba atômica e quer o fim de todas as atividades de enriquecimento — os iranianos negam ter tais planos e não há indícios de que tenham um artefato ou estejam perto de obtê-lo. Ironicamente, foram os EUA, há mais de sete décadas, que deram o passo inicial para o desenvolvimento nuclear do país.
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No final dos anos 1950, quando o Irã era comandado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, um aliado de Washington, o país foi convidado para fazer parte de um programa da Casa Branca chamado “Átomos pela Paz”. Dez anos depois, em 1967, os americanos forneceram o primeiro reator nuclear de pesquisa, com capacidade de 5 MW, hoje localizado em em Teerã. Além de equipamentos e insumos, o programa abriu caminho para a formação de profissionais no setor e para a expansão dos planos do monarca no campo nuclear.
Nos anos seguintes, o xá firmou um acordo para a aquisição de cinco reatores com tecnologia francesa. Sob a égide da soberania nacional, passou a defender o direito do Irã de enriquecer urânio “para fins pacíficos” sem limitações externas, retórica similar à dos discursos das atuais autoridades iranianas. Com três países da vizinhança— Israel, Índia e Paquistão — em etapas distintas de suas corridas por uma bomba, o imperador sugeria que seguiria pelo mesmo caminho.
— Sem dúvida alguma, e mais cedo do que se poderia pensar — respondeu Pahlavi, em 1974, quando indagado por um jornalista francês se o poderia buscar uma arma nuclear, um mês depois do primeiro teste atômico da Índia, o “Buda Sorridente”.
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Em meados de 1978, após longas negociações e pressão do governo do presidente Jimmy Carter, Washington chegou a um acordo preliminar para a venda de seis a oito reatores nucleares para Teerã, mas estipulou regras rígidas. Entre elas, o veto ao reprocessamento de combustível nuclear para uso militar sem autorização prévia. Meses depois, a deposição do xá em meio à Revolução Islâmica e a invasão iraquiana em 1980 mudaram radicalmente o jogo político em Teerã, mas nem tanto suas bases estratégicas.
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— Quero questionar a atitude hipócrita e arrogante dos americanos e britânicos. Será que esses bastardos são os guardiões do mundo escolhidos por Deus para estocar centenas de milhares de ogivas nucleares? — disse Khan em entrevista no início do século, quando sua rede nuclear subterrânea começava a ser exposta ao mundo.
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Em 2002, o programa sofreu um golpe que não levou ao seu fim, mas passou a alimentar a desconfiança da comunidade internacional sobre suas finalidades.
Documentos secretos obtidos pelo Conselho Nacional de Resistência do Irã, uma aliança de opositores no exílio liderados pelo grupo Mujahedins do Povo, revelaram a existência de duas instalações secretas — Natanz e Arak — onde o regime buscaria enriquecer urânio suficiente para usar em uma arma. Nos anos seguintes, novas unidades foram reveladas, como Fordow, construída sob uma montanha e atacada pelos EUA em 2025, embora os danos não sejam exatamente conhecidos.
Sob pressão da ONU, Teerã reconheceu suas atividades, mas assegurava que elas tinham apenas finalidades pacíficas. Entre os argumentos, uma fatwa (decreto religioso) emitida pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em 2003, que considerava haram (proibido) a construção e o uso de armas de destruição em massa.
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Contudo, investigações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e documentos obtidos pela inteligência israelense em 2018 apontaram para a existência de um suposto projeto, conhecido como Plano Amad, para construir armas nucleares. Segundo as alegações, o plano era liderado pelo cientista Mohsen Fakhrizadeh — assassinado por Israel em 2020 — e foi encerrado em 2003, sem que uma ogiva tenha sido desenvolvida ou montada.
O Irã nega sua existência, e garante sempre ter seguido seus compromissos junto ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, assinado pelo país em 1968 (como também dizia o xá Reza Pahlavi) Isso não impediu a imposição de sanções internacionais, que, aliadas a problemas estruturais e de gestão, estão no cerne da crise econômica enfrentada na nação.
— Dissemos aos americanos que atacaremos sozinhos se o Irã ultrapassar a linha vermelha que estabelecemos para mísseis balísticos — disse um integrante das Forças Armadas de Israel ao jornal Jerusalem Post, no início do mês.
Por mais que Trump se apresente como o “presidente da paz”, ele tem uma boa parcela de culpa na crise envolvendo o Irã. Em 2018, o republicano rasgou um acordo internacional (Plano de Ação Conjunto Global, o Jcpoa), firmado por EUA, Irã, Alemanha, Rússia, China, França e Reino Unido, que estabelecia limites ao grau de enriquecimento de urânio pelos iranianos, ao desenvolvimento de novas centrífugas e ao volume de material enriquecido armazenado no país. Inspetores tiveram acesso a instalações outrora vetadas, e podiam verificar em tempo real as atividades. Em troca, sanções foram suspensas, mecanismos de comércio restabelecidos e teve início um lento processo de normalização de laços com o Ocidente.
Ao quebrar o acordo, o chamando de “o pior da História”, Trump retomou e ampliou as sanções e deixou sobre a mesa a ameaça de um ataque. Teerã, por sua vez, começou a descumprir seus compromissos, acumulando urânio enriquecido a 60%, ampliando sua capacidade de enriquecimento e barrando inspetores.
Ao contrário do que prometeu na campanha, em 2020, o então candidato democrata à Presidência Joe Biden não retomou o Jcpoa. Com Trump de volta à Casa Branca, em 2024, aumentou a pressão por um acordo maximalista, incluindo o fim do programa nuclear, limites ao desenvolvimento de mísseis e às redes de milícias aliadas no Oriente Médio. Como ele demonstrou, o uso da força para fazer cumprir sua vontade não era mais apenas um exercício retórico.