Concessionária aguarda aprovação do Conpresp para transformar área da antiga Serraria em área comercial no Parque Ibirapuera, em São Paulo
atualizado
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A Urbia pretende transformar em uma espécie de “shopping” parte da antiga Serraria, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O grande vão coberto, usado hoje para contemplação e práticas variadas, como ioga e tai chi chuan, seria destinado a atividades comerciais, como restaurantes, lojas e até academia.
A liberação das mudanças na Serraria está condicionada à aprovação do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), que deverá colocar o projeto em pauta em uma próxima reunião.
O projeto que envolve a Serraria foi apresentado pela concessionária em junho de 2024 e enfrenta resistência mesmo após modificações propostas pela empresa para convencer órgãos de proteção do patrimônio e torná-lo viável.
A área onde fica o novo alvo da Urbia, nas proximidades do Portão 7, na Avenida República do Líbano, já passou por muitas transformações desde que o Ibirapuera foi concedido, com a construção da Casa Ultravioleta, do Nubank, e do restaurante Jardim Churrascada.
A Serraria está no espaço que foi revitalizado a partir de projeto de Roberto Burle Marx, em 1992, tanto que a praça ao lado recebe o nome do paisagista.
Área da Serraria, no Parque Ibirapuera, em São Paulo
Professor Marco Hanada, na área da Serraria, no Parque Ibirapuera, em São Paulo
Área da Serraria, no Parque Ibirapuera, em São Paulo
Área da Serraria, no Parque Ibirapuera, em São Paulo
Área da Serraria, no Parque Ibirapuera, em São Paulo
Em parecer contrário à reforma, um dos arquitetos da área técnica do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) ressaltou, entre outras coisas, que “a Serraria representa o maior projeto executado de Burle Marx com proteção cultural em São Paulo, idealizado para o uso coletivo e, desse modo, melhor exemplar capaz de aproximar a obra desse paisagista mundialmente conhecido dos cidadãos de nossa cidade”.
O parecer também aponta que “não se trata de um espaço ocioso ou abandonado”. “Burle Marx se utilizou dessa estrutura como parte de seu programa, criou um espaço de proteção das intempéries, local para se abrigar da chuva, se proteger da luz solar”, diz.
Por fim, conclui que “a proposta apresentada é prejudicial à edificação e a todo paisagismo que a circunda e, desse modo, somos contrários à sua implantação”.
Em 11 de fevereiro, entretanto, a coordenadora geral do DPH determinou que a questão fosse apreciada e decidida pelo colegiado, no Conpresp. E fez uma observação, registrando que não havia o entendimento de que o Plano Geral de Intervenção seja “algo imutável”, “que não possa ser revisto, desde que devidamente justificado”.
Na última segunda-feira (23/2), o projeto que trata da reforma foi retirado da pauta do Conpresp, o que é visto como um respiro por quem é contra a mudança. O temor é de que houvesse a aprovação.
Vereadores entraram com pedido para a retirada da pauta e também têm se manifestado contrários à intervenção proposta pela Urbia.
Reação
Nas redes sociais, Nabil Bonduki (PT) disse que o projeto da Urbia “não respeita a permeabilidade, ambiência e a arquitetura do lugar”. “A intervenção descaracteriza a construção, remanescente do período da industrialização de São Paulo, com uma laje intermediária de concreto e fechamento de vidro, não respeitando a recomendação do IPHAN, e do próprio Plano de Intervenção da concessão”, afirmou.
Renata Falzoni (PSB) solicitou à Secretaria da Cultura e Economia Criativa, na última sexta-feira (20/2), celeridade no processo de tombamento da Serraria e da Praça Burle Marx. Em entrevista ao Metrópoles, a vereadora criticou o projeto da Urbia. “A gente sabe o que acontece no Ibirapuera. É um comércio elitizado”, disse.
A parlamentar ressaltou que o espaço atualmente é usado para atividades calmas, de contemplação, o oposto do que se pretende com o projeto. “É para isso que esse espaço foi criado. Imagina o impacto de muitos carros chegando para um consumo que a gente sabe que vai ser bem no estilo dos shoppings centers”, afirma.
A vereadora Marina Bragante (Rede) protocolou uma representação na Promotoria de Justiça do Patrimônio Público contra a mudança. “Vemos no Ibirapuera cada vez mais cercamentos, eventos fechados e estruturas comerciais e acionamos o Ministério Público contra mais esse absurdo. O parque deve ser um espaço verde, público, e não mais um shopping na cidade”, afirmou.
Projeto
Segundo o projeto, cinco vãos do espaço coberto permaneceriam destinados “à livre fruição”. Entretanto, sete vãos seriam ocupados com atividades comerciais, sanitários, escadas e elevador, um para circulação e outro para o espelho d’água. A maior transformação ocorreria na parte superior, com a criação de um laje. Por definição, mezzanino não pode ultrapassar um terço da edificação, mas a Urbia apresentou o projeto com ocupação de 89% do total, caracterizando um pavimento como qualquer outro, segundo análise da área técnica do DPH.
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
Imagem ilustrativa sobre projeto da Urbia para a Serraria
A Urbia afirmou à prefeitura que o projeto foi “revisado e aprimorado”, com base em aprovações anteriores, “incorporando todos os ajustes possíveis” para torná-lo viável. “As intervenções garantem a fruição pública, respeitam a configuração histórica da Praça Burle Marx e mantêm coerência com os elementos existentes no Parque Ibirapuera. Dessa forma, as observações dos órgãos foram atendidas, tornando o projeto consistente e qualificado para aprovação”, diz, no documento apresentado à administração municipal.
A reportagem ouviu frequentadores do parque sobre a intenção da Urbia de promover alterações na área da Serraria.
“Até entendo a vontade deles de tornar algo mais comercial. Como professor e com a minha turma, gostamos de usar esse espaço por ser coberto, ventilado, com visual bonito. Ainda mais depois que foi reformado, ficou muito gostoso aqui. Gostaria muito de continuar usando aqui, se possível”, disse o professor de educação física e tai chi chuan, Marco Augusto Sato Hanada, 46 anos. “Mas, também, se eles forem mudar, o que a gente pode fazer? Não tem muito. Mas gostaria de continuar contando com esse espaço, que é muito gostoso”, afirmou.
Gerente de marketing, Isabela Cristina Testoni, 31 anos, afirmou que é favorável a trazer vida para o parque em suas mais diversas formas. “Mas essa é uma área já bastante ocupada por pessoas, famílias, crianças, sem ter comércio. Falta hoje na vida de quem mora em São Paulo espaços vazios para estar em contato com a natureza. Não acho que é necessário colocar mais comércio aqui. Está suficiente, é bom esse espaço vazio, sem comércio, para as pessoas estarem em contato com a natureza”, disse.
O que diz a Urbia
A Urbia afirma que “tem orgulho de apresentar o projeto de requalificação da antiga Serraria, dando continuidade ao projeto do restauro da Praça Burle Marx, no Parque Ibirapuera”.
“Trata-se de uma proposta cuidadosamente desenvolvida para valorizar o patrimônio histórico, qualificar o uso público e devolver protagonismo a uma área hoje subutilizada do parque”, afirma.
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Segundo a concessionária, o uso comercial da Serraria foi aprovado desde 2022 pelos três órgãos de preservação do patrimônio (Iphan, Condephaat e Conpresp) como atividade compatível com o conjunto tombado e o projeto atual respeita as diretrizes e preserva as funções arquitetônicas e paisagísticas do espaço.
A Urbia diz que a proposta atual já foi aprovada pelo Iphan e Condephaat e aguarda a aprovação do Conpresp, “com manifestação favorável da Diretoria Técnica e Coordenação Geral do DPH no âmbito municipal”. “Há uma única manifestação técnica divergente em análise, dentro do rito regular de deliberação do Conpresp, o que faz parte do processo institucional de avaliação”, afirma.
O que diz a Prefeitura de São Paulo
A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC) afirma que a pauta referente à reforma da Serraria e da Praça Burle Marx, no Parque Ibirapuera, será discutida em uma próxima reunião do Conpresp, com data a ser definida.
“A deliberação sobre o projeto passará pela análise do parecer do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) citado”, diz, em nota.
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