Entrevista | Documentário sobre George Orwell faz alerta sobre guerras, IA e mais: ‘Não existe neutralidade’
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Entrevista | Documentário sobre George Orwell faz alerta sobre guerras, IA e mais: ‘Não existe neutralidade’

Quem leu 1984, o romance distópico e fundamental do escritor inglês George Orwell (1903-1950), logo vai entender a referência usada no título do documentário Orwell: 2+2=5, dirigido pelo cineasta haitiano Raoul Peck. A cena em que o protagonista Winston é torturado até ser forçado a acreditar em uma inverdade retorna algumas vezes ao longo do filme, resgatada de diversas adaptações do livro.

Não é difícil de entender o que Peck está fazendo em seu documentário, que concorre ao Oscar e está em cartaz em cinemas nacionais. Ele parte da história de Orwell, seus romances e ideais para mostrar como eles estão profundamente ligados com o tempo presente. Não se trata somente de governos totalitários, mas de um tempo em que a pós-verdade é a regra, em que sujeitos realmente podem acreditar que dois mais dois é igual a cinco.

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    Peck parte de escritos deixados pelo próprio Orwell, em uma parceria com o espólio do escritor, e os usa como fio condutor por meio da narração do ator britânico Damian Lewis. Na tela, as cenas são predominantemente do mundo real: de imagens de Mariupol, na Ucrânia, após a invasão russa em 2022, a registros da Alemanha em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial.

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    O cineasta mostra cenas cruas de Gaza, da Guerra Civil de Mianmar, da invasão ao Capitólio dos Estados Unidos em 2021. Poucos passam ilesos ao documentário, de líderes políticos, como Vladimir Putin, Donald Trump e Viktor Orbán, a donos de grandes corporações, como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos.

    Mas tudo vem das palavras de Orwell, sem entrevistas com analistas ou personagens. “Acho que o público tem capacidade para julgar por si próprio. Ninguém quer um intérprete. As pessoas querem acesso direto às palavras. É por isso que, no caso de Orwell, uso exatamente apenas o que ele escreveu”, diz Peck em uma entrevista ao Estadão.

    “Para ser corrompido pelo totalitarismo, não é necessário viver em um país totalitário”, diz Orwell, em determinado ponto. Em seguida, vemos imagens do ex-presidente americano George W. Bush, em 2002, em um discurso que antecede a ocupação do Iraque. Em seguida, uma cena da versão de 1965 de 1984, do diretor Michael Anderson, falando sobre a guerra entre Oceania e Eurásia. "Guerra é Paz", estampa a tela. A justaposição não é à toa.

    É uma técnica semelhante à que ele já usou em outros documentários, inclusive o também indicado ao Oscar Eu Não Sou Seu Negro, sobre o escritor James Baldwin. “Não estou fazendo uma biografia. Estou contando uma história para que haja um desenvolvimento dramático”, afirma.

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    A história de Peck está profundamente ligada ao ativismo. Ele nasceu em Porto Príncipe, 1953, mas fugiu da ditadura de François Duvalier aos oito anos e mudou-se com a família para o Congo. Chegou a ser motorista de táxi quando foi morar em Nova York e foi jornalista na Alemanha antes de se formar em cinema.

    “Eu vim para o cinema por meio da política. Para mim, desde o início, foi uma forma de ser ativo neste mundo”, diz. Nesta conversa com o Estadão, ele fala sobre a criação de Orwell: 2 + 2 = 5, a arte como manifestação política, a política brasileira e os elogios de Barack Obama. Confira os principais trechos:

    A minha forma de trabalhar é exatamente o contrário. Eu costumo trabalhar com temas ou ideias que são fundamentais. Isso significa que você pode usá-las o tempo todo, que ajudam você a entender o que quer que o mundo esteja passando e a ter um instrumento de análise.

    Não queria que o filme fosse datado, como se eu criasse um produto que só tem valor para este momento exato. Da mesma forma que eu não queria que o filme fosse sobre Donald Trump. Ele faz parte dele, mas é apenas um exemplo entre muitos outros. Você poderá assistir ao meu filme daqui a 10, 20, 30 anos, porque é uma história sobre um personagem chamado George Orwell, e você pode assisti-la repetidas vezes.

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    Eu nunca vi a arte como apenas entretenimento. Para mim sempre foi algo que você faz e devolve à sua sociedade. Eu quero que meu trabalho faça sentido e meu trabalho só pode fazer sentido quando digo algo sobre nosso coletivo. Não estou trabalhando para o meu próprio ego.

    Concordo com o que Orwell disse. Hoje, é claro, há muita discussão em torno disso. Há muita gente que não se posiciona, que não para pensar sobre o que está acontecendo. E quando você vê o que está acontecendo com Donald Trump, isso não é algo que surgiu do nada. É a continuação de um longo desenvolvimento de pelo menos 50 anos.

    Nós vimos a degradação da democracia em muitos países, na Europa e na América. Vimos hipocrisia. Vimos como o mundo ocidental apoiou a ditadura em países do terceiro mundo. Ao mesmo tempo, eles proclamam que são democratas. Acho que cresci com essas contradições. Cresci com o fato de que 500 mortos em um país africano não tem o mesmo peso que duas pessoas mortas no sul da França.

    Cresci com o fato de que 500 mortos em um país africano não tem o mesmo peso que duas pessoas mortas no sul da França.

    Raoul Peck

    Como cidadão, você precisa aprender o que está sendo apresentado a você, especialmente quando você não controla os instrumentos de comunicação ou a tecnologia. Olhe o que está acontecendo agora com a internet e a inteligência artificial. Basicamente, todo mundo se tornou consumidor e anônimo, e eles não sabem, em primeiro lugar, o que é verdade ou não, porque a maioria das pessoas não vai atrás da origem do que recebe.

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    Neste filme em particular, eu não coloquei um trecho do Brasil, mas no meu último filme eu coloquei um trecho muito preciso do Bolsonaro. Eu tenho muitos amigos brasileiros e estive em São Paulo no ano passado. Estou muito ciente do que está acontecendo e que o filme também é para o público brasileiro. Ele mostra qual é o papel da cidadania em preservar a democracia no país e a comunicação verdadeira.

    Todos os instrumentos que o Orwell nos demonstrou... o Brasil é exatamente onde devemos mostrar isso. O extremismo, as mentiras, o uso da propaganda, o ataque à Justiça, às universidades, à imprensa, o culto à personalidade: são todas essas coisas que deveriam nos despertar e nos fazer perceber que a democracia é algo pelo qual você tem que lutar.

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    Fiquei um pouco surpreso com o fato de Obama ter colocado o filme em sua lista, mesmo que eu o tenha criticado em pelo menos dois dos meus filmes. Interpreto isso como um sinal de que ele é um verdadeiro democrata. Ele aceita críticas, mesmo críticas contra ele. Também sei que nunca foi fácil para ele se tornar presidente dos Estados Unidos. E ele não estava sozinho.

    As pessoas têm a ideia de que, como presidente, você pode fazer o que quiser. Não é assim. Trump pode fazer muitas das coisas que quer porque não obedece à lei. Ele não obedece às regras, não tem limites. Acho que Obama está mais próximo de um democrata de verdade.

    Sei que alguns dos líderes econômicos que assistiram ao filme não estão muito felizes. Mas o fato é que não estou mentindo. Estou divulgando isso e qualquer pessoa pode verificar. E, inclusive, acho que o filme poderia ter sido ainda mais radical no sentido de relatar o que está acontecendo agora. Mas, sabe, estou fazendo um filme sobre Orwell, então tenho que me ater ao que Orwell diz de uma forma muito universal.

    Tenho que colocar o espectador diante da responsabilidade dele. Para todos nós, somos cidadãos, e democracia significa que o povo de uma cidade está informado, educado e participa da vida da cidade. Eles decidem juntos, e nós esquecemos essa parte. Sabemos perfeitamente, mesmo no Brasil, quantas pessoas morreram pela democracia. Na Europa, quando me fazem essa pergunta, eu respondo que se você está me perguntando isso, é porque ainda é privilegiado.

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    A maioria das pessoas no mundo sabe que precisa agir, caso contrário, morrerá. Então, ter esperança ou dizer que sou pessimista ou otimista significa que você ainda tem tempo na sua cabeça. Quando você está em uma casa em chamas, você não tem tempo para dizer: “Tenho esperança de escapar?”. Não, você encontra uma maneira de sair de lá.

    É por isso que o Orwell dizia que, se há esperança, não há determinismo. Será uma questão do que você decidir individualmente ou coletivamente. Você coloca seu corpo na frente do perigo ou você simplesmente se esconde ou diz: “Não é problema meu”? Mas a história continuará. E a última coisa: Orwell dizia que não existe neutralidade. Dizer que não sabe ou não se importa também é uma posição política.