Crédito: Imagens: AP
Gerando resumo
O presidente americano, Donald Trump, fez na terça-feira uma avaliação sobre o primeiro ano de seu segundo mandato, em um discurso ao Congresso.
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O pronunciamento serviu para reafirmar os pontos da agenda do republicano delineados ainda em seu discurso de posse: combate à imigração ilegal, protecionismo e um reposicionamento dos Estados Unidos no cenário global.
Trump vinha de um ano de sucessivas vitórias para seu projeto de poder. Ele aprovou uma lei orçamentária que permitiu corte de impostos para os mais ricos e o aumento de recursos para sua operação anti-imigração; ele reposicionou os interesses estratégicos americanos para a América Latina, com intervenções diretas ou indiretas em países como Honduras, Venezuela e Argentina; e afastou-se politicamente da Europa, que tem visto uma ascensão de partidos de direita radical que fazem parte da Internacional Populista informou do presidente americano.
E, claro, saiu impondo tarifas a torto e a direito, contra rivais e aliados, como se essas coisas funcionassem num toque de mágica e como se taxas sobre exportação fossem uma espécie de panaceia para resolver problemas tão complexos e distantes como a paz no Oriente Médio e a decadência do setor manufatureiro americano.
Todo esse sucesso ocorreu às custas de uma espécie de hiper-presidencialismo experimentado por Trump. O presidente assinou no primeiro mandato 225 decretos, um recorde histórico, atrás apenas dos primeiros anos de mandato de Franklin Roosevelt.
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Alguns deles, como os decretos sobre o direito a cidadania de filhos de imigrantes nascidos no país, foram contestados na Justiça. Um dos mais importantes, sobre o direito do Executivo de impor tarifas alfandegárias, chegou à Suprema Corte, e a decisão veio apenas quatro dias antes do discurso de Trump.
Freio constitucional
E após um ano concedendo liminares que permitiam ao presidente seguir com seu hiper-presidencialismo até um veredito final da Corte sobre os mais variados temas, os juízes decidiram dar um freio em Trump. As tarifas impostas em abril, que variavam entre 10% e 40% sobre produtos comprados pelos EUA, foram consideradas inconstitucionais.
Trump, pela primeira vez no segundo mandato, foi contido.
A derrota na Justiça foi importante do ponto de vista da manutenção do Estado de direito e do sistema de freios e contrapesos - que muita gente temia que estava em risco nos EUA.
Mas a decisão também oferece a Trump uma rampa de saída para uma política amplamente inócua.
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A lógica vendida por Trump para impor as tarifas era a seguinte: outros países se aproveitam do mercado americano para vender, sem concorrência, produtos que poderiam ser produzidos dentro dos EUA. Para (re)industrializar o país, seria necessário taxar esses países. Com isso, as indústrias americanas voltariam a produzir e empregar americanos.
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A ideia não é nova. Chama-se substituição de importações. Quem se lembra das aulas de história do colégio sabe que o Brasil passou por um processo semelhante no século 20. Outros países latino-americanos, com a Argentina, também.
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Plano fracassado
Mas nos EUA isso não deu certo. Segundo o Departamento de Economia e Estatísticos, o déficit comercial americano diminuiu apenas 0,2% no ano passado. As importações, inclusive, aumentaram 4,8%, com tarifas e tudo.
Economistas têm dois argumentos para explicar esse aumento. Em primeiro lugar, houve uma corrida às compras no primeiro trimestre antes de Trump anunciar as tarifas no chamado “Dia da Libertação”.
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Além disso, as importações não foram substituídas, os EUA apenas mudaram de cliente. Em vez de comprar da China, passaram a comprar de outros países com tarifa menor, como Índia e Vietnã, por exemplo.
Os empregos prometidos por Trump não vieram. No ano passado, o setor de manufatura fechou 30 mil vagas. O aumento de tarifas de matérias-primas como aço e alumínio, por exemplo, diminuiu a margem de lucro de indústrias que trabalham com cadeias de suprimento internacionais. E elas tiveram de demitir.
A economia não está totalmente no vinagre porque os investimentos em IA puxam o PIB americano e parte do choque de preços provocados pelas tarifas foram absorvidos sem que a inflação saísse do controle.
Ainda assim, o custo de vida continua alto.
Trump poderia agarrar-se na corda esticada pelos juízes da Suprema Corte, mas decidiu dobrar a aposta. Usando um outro dispositivo temporário, aplicou tarifas indiscriminadas de 15% a diversos parceiros comerciais por um período de 150 dias. É menos do que no ano passado, mais ainda é suficiente para causar mais estragos.
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O presidente, mais uma vez, dobrou a aposta.