'Projeto ideológico radical': por que os EUA foram o único país a votar contra mudança do mapa-múndi para corrigir distorções na ONU
politica

'Projeto ideológico radical': por que os EUA foram o único país a votar contra mudança do mapa-múndi para corrigir distorções na ONU

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, por 164 votos a favor, uma resolução que busca mudar a forma como o mundo é representado nos mapas, e a votação foi quase unânime. Quase...

Isso porque os Estados Unidos foram o único país a votar contra a proposta. Outros seis se abstiveram.

A iniciativa foi batizada de "Corrija o mapa" e tem apoio da União Africana. O texto incentiva a adoção de uma projeção cartográfica que reduza as distorções entre as dimensões dos continentes.

🗺️A medida corrige uma distorção na chamada projeção de Mercator, usada tradicionalmente em documentos e livros escolares: com ela, áreas próximas aos polos aparecem visualmente maiores do que são na realidade. Ao mesmo tempo, regiões próximas à linha do Equador ficam proporcionalmente menores.

Os EUA, no entanto, se opuseram à medida porque entende que ela faz parte de um "projeto ideológico radical maior".

"Embora essa iniciativa seja apresentada como um esforço inócuo para atualizar proporções cartográficas, os Estados Unidos claramente percebem que ela não pode ser dissociada do projeto ideológico muito mais amplo e radical do qual faz parte — como seus defensores mais vocais e convictos declaram de forma clara e aberta", disse Yaryna Ferencevych, vice-representante dos EUA no Conselho Econômico e Social da ONU, que leu o voto americano em plenário.

A fala de Ferencevych não explicita qual seria esse "projeto maior", mas o governo Trump invoca frequentemente uma retórica de "guerra cultural" ao discutir pautas que dão mais visibilidade a países fora do Ocidente.

No caso da adoção do novo mapa, o projeto partiu de países africanos, incomodados com uma projeção que fazia seus territórios parecerem menor do que realmente são, em comparação com os europeus, por exemplo.

Curiosamente, o governo Trump tem usado referências geográficas como projeção de poder nos últimos tempos. Logo ao assumir a Casa Branca para seus segundo mandato, Trump renomeou o Golfo do México como Golfo da América — nem o México, nem outros países adotaram a mesma denominação.

Mais recentemente, em agosto, Trump usou o recurso novamente: em meio a uma guerra comercial com o Canadá, renomeou o Lago Ontário, um dos cinco Grandes Lagos da América do Norte, de Lago América.

Essa não é a primeira vez que a gestão Trump acusa a ONU de "ideológica". Em 2025, o republicano retirou o país da Unesco sob a mesma justificativa.

Na época, o governo americano disse que o órgão "promove causas sociais e culturais polarizadoras e mantém um foco desproporcional nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, uma agenda ideológica e globalista de desenvolvimento internacional que vai contra nossa política externa America First [EUA em primeiro lugar, em português]".

Além dos EUA, que votaram contra a resolução, Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia se abstiveram.

A resolução aprovada pela ONU argumenta que mapas não são apenas ferramentas para localizar países e continentes. Eles também ajudam a formar a maneira como as pessoas enxergam o mundo.

🔎 Veja abaixo como a Groenlândia, próxima ao Polo Norte, diminui de tamanho na nova projeção:

🔎 Veja também como a África, cuja maior parte do território fica na região intertropical, fica maior na nova projeção:

Segundo o texto, as distorções podem ter efeitos cognitivos, educacionais, culturais e até geopolíticos. A proposta afirma que a permanência dessas representações pode perpetuar uma visão desequilibrada entre diferentes regiões.

A resolução defende, por isso, uma representação mais próxima das dimensões reais das massas de terra.

🔎Veja uma comparação das proporções feita pelo Ministério do Interior da França. O país está começando a usar o mapa Eckert IV, com escala semelhante à do projeto 'Corrija o mapa':

A alternativa apoiada pela iniciativa é o modelo chamado "Terra Igual", adotado pela União Africana.

A projeção procura preservar melhor as proporções entre os continentes e dar uma representação mais próxima das áreas reais das diferentes regiões do planeta.

A aprovação da ONU, porém, não significa que o mapa-múndi de Mercator será imediatamente abandonado. A resolução incentiva governos, organizações internacionais e outras instituições a considerar modelos mais precisos.

Antes da votação, o ministro das Relações Exteriores de Togo, Robert Dussey, país que lidera a iniciativa, afirmou que a decisão representa uma defesa da "verdade científica".

Para ele, a discussão vai além da cartografia: trata também da maneira como diferentes povos e territórios são percebidos.

A resolução relaciona ainda a iniciativa ao Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros da ONU em 2024, que prevê ações para enfrentar desigualdades históricas e estruturais.

← Volver a noticias