Entenda: vitória de candidata de linha dura expõe dilema entre boom comercial e avanço do narcotráfico na Costa Rica
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Entenda: vitória de candidata de linha dura expõe dilema entre boom comercial e avanço do narcotráfico na Costa Rica

Novo porto em Puerto Limón impulsionou exportações, mas também transformou o país em rota da cocaína e pôs segurança no centro da eleição presidencial

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    GERADO EM: 02/02/2026 - 17:20

    Laura Fernández e o Desafio de Combater o Tráfico na Costa Rica

    A eleição de Laura Fernández como presidente da Costa Rica destaca o dilema entre crescimento econômico e tráfico de drogas. O novo porto em Puerto Limón, inaugurado em 2019, impulsionou as exportações, mas também facilitou a rota da cocaína, aumentando a criminalidade. Fernández promete combater o narcotráfico com medidas duras, enquanto o país enfrenta desafios de segurança e corrupção.

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    Eleita presidente da Costa Rica neste domingo, a direitista Laura Fernández assume o cargo com a promessa de usar mão de ferro contra o narcotráfico. O país da América Central, conhecido há décadas como polo turístico, vê seu principal projeto de integração ao comércio global, um novo porto inaugurado em 2019, transformar-se também em porta de entrada para o crime organizado.

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  • Em dezembro de 2025, um navio de contêineres carregado de abacaxis da Costa Rica atracou na Espanha. Lá, inspetores abriram a carga e encontraram pacotes de cocaína, avaliados em cerca de US$ 70 milhões (R$ 368 milhões). Para cada carregamento ilícito interceptado, muitos outros conseguem passar.

    A Costa Rica sempre foi valorizada por suas praias tropicais, florestas nubladas e preguiças de movimentos lentos. Há cerca de uma década, o país viu uma oportunidade de impulsionar seu desenvolvimento econômico quando uma unidade do grupo A.P. Moller-Maersk começou a construir um porto em sua costa atlântica, próximo à cidade de Puerto Limón.

    O projeto impulsionou um forte crescimento das exportações, mas também alimentou o tráfico de drogas, trazendo corrupção, homicídios e a percepção, entre parte da população, de que os custos podem superar os benefícios.

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  • Na campanha que precedeu a ida dos costa-riquenhos às urnas neste fim de semana para escolher um novo presidente, o tema das drogas e da criminalidade dominou o debate. Os assassinatos aumentaram 53% nos últimos seis anos e pouco recuaram desde o pico registrado em 2023. A mensagem de tolerância zero ao crime do presidente Rodrigo Chaves encontrou eco. A candidata de seu partido, a ex-ministra Laura Fernández, de 39 anos, teve apoio suficiente para alcançar 48,3% dos votos, oito pontos a mais do que o necessário para vencer no primeiro turno, segundo 94% da apuração do Tribunal Supremo de Eleições (TSE). O social-democrata Álvaro Ramos, principal opositor na disputa, ficou com 33,4% dos votos.

    As propostas de Fernández sobre segurança — que capitalizaram a principal reivindicação dos costa-riquenhos — e para reformar os Poderes do Estado são vistas pela oposição como parte de um plano mais amplo de concentração do poder, à maneira do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, primeiro mandatário a parabenizá-la. Em seu discurso de vitória, no qual surpreendentemente não se referiu à violência, a presidente eleita afirmou que "nunca permitirá o autoritarismo", declarou-se uma "democrata convicta" e "defensora da liberdade", criticando a oposição, que acusou de se apoiar "na retórica do autoritarismo e da ditadura.

    — O mandato que me foi conferido pelo povo soberano é claro: a mudança será profunda e irreversível — disse.

    A situação em Puerto Limón é vista como um alerta sobre os riscos de abraçar o comércio internacional sem estabelecer salvaguardas adequadas. Apenas neste mês, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos classificou a Costa Rica como “um ponto-chave global de transbordo de cocaína” e “uma rota cada vez mais significativa para organizações criminosas”.

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    A Maersk se recusou a comentar sobre crime ou drogas no porto à agência Bloomberg. Sua subsidiária responsável pelas operações no local, a APM Terminals, também não quis se pronunciar. Em resposta a questionamentos do jornal local La Nación em agosto, um porta-voz da APM afirmou que o porto colabora com as autoridades e tem tolerância zero com a corrupção.

    — O problema é para a nossa reputação comercial como país — disse Alfredo Salas, diretor da câmara de empresas de navegação da Costa Rica. — Isso gera desconfiança.

    Puerto Limón não tinha uma polícia municipal até pouco tempo atrás e operou durante anos com apenas um carro de patrulha. Hoje, abriga um mercado local de drogas em expansão, que impulsionou uma onda de homicídios. Navios de cruzeiro continuam chegando para que turistas comprem preguiças de pelúcia e chapéus com o slogan nacional “Pura Vida”, mas o governo afirma que o primeiro cartel doméstico do país atua na província.

    Ao mesmo tempo, o comércio exterior da Costa Rica cresceu em ritmo acelerado, impulsionado pelos embarques de abacaxis, bananas, café, eletrônicos e dispositivos médicos pelo porto. Em nível nacional, as exportações de bens aumentaram 87% desde a inauguração da infraestrutura, que responde por mais da metade das mercadorias enviadas ao exterior. O boom ajudou a fortalecer a moeda local, que atingiu seu nível mais alto em duas décadas.

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  • Produtores de frutas que exportam para a Europa e os Estados Unidos, no entanto, estão preocupados com a crescente reputação do porto associada ao crime e com os custos para escanear cargas em busca de drogas. O tempo adicional pode causar atrasos, e qualquer irregularidade detectada pode levar à apreensão de todo o carregamento.

    Autoridades afirmam que, em geral, produtores e compradores desconhecem a presença do contrabando, inserido nas cargas e posteriormente retirado por criminosos que se infiltram nos portos.

    — Se há um problema e algo é detectado, não é só a droga que é retirada. Toda a carga é perdida — disse Abel Chaves, presidente da associação de produtores de abacaxi Canapep. — O impacto econômico é muito grande.

    Península artificial

    Península artificial

    O porto foi construído por cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,26 bilhões) em uma península artificial e hoje é o mais movimentado da América Central fora do Panamá.

    Apesar de o governo afirmar que está combatendo o tráfico de drogas, os problemas de segurança persistem. A apreensão feita na Espanha envolveu cerca de duas toneladas de cocaína. A droga também já foi encontrada escondida em cargas de mandioca e sob caixas de bananas.

    Com a criminalidade no centro da campanha, a agora presidente eleita Laura Fernández propôs a suspensão de direitos constitucionais em bairros com altos índices de atividades criminosas para facilitar prisões.

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  • Após várias ondas de imigração, moradores alternam entre o espanhol e um crioulo derivado do inglês, adaptado do patoá jamaicano.

    A prefeita de Puerto Limón, Ana Matarrita McCalla, ampliou programas voltados para jovens, na esperança de prevenir o crime e fortalecer o turismo. Ela também elogiou a estratégia do governo central.

    — Os scanners do governo desaceleraram as rotas do tráfico — afirmou. — Eles têm sido muito estratégicos.

    Pouco depois da abertura do porto, em 2019, investigadores passaram a receber relatos sobre grupos criminosos que subornavam ou ameaçavam funcionários e caminhoneiros, oferecendo até US$ 20 mil (R$ 105 mil) para que ignorassem atividades ilegais, segundo Mauricio Guzmán, chefe do escritório local de investigações. Diante do agravamento do problema, o governo substituiu a segurança privada do porto por forças policiais estatais em 2023 e instalou novos scanners para monitorar melhor as cargas.

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    A corrupção e a criminalidade levaram parte da população a questionar a decisão de construir o porto e os esforços do país para acessar novos mercados.

    — O caos social que isso deixou aqui é enorme — destacou Antonio Wells Medina, líder de um sindicato que representa trabalhadores de um porto estatal próximo. — Foi um preço muito alto a pagar.

    Em agosto, o Departamento do Tesouro dos EUA divulgou um relatório, afirmando que grupos criminosos disputaram o controle do porto operado pela APM. O documento também informou que um ex-ministro da Segurança Nacional da Costa Rica havia sido preso no país, acusado de envolvimento com o tráfico de drogas, após pedido de extradição feito pelos Estados Unidos.

    No mês passado, Washington sancionou uma associação de pescadores de Limón e um salão de beleza, apontados como fachadas para lavagem de dinheiro.

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  • O aumento da pressão ocorre em meio a uma postura mais agressiva dos EUA contra o tráfico de drogas na América Latina durante o segundo mandato do presidente Donald Trump. O país vem destruindo embarcações supostamente usadas para transportar drogas no Caribe e no Pacífico, ameaça empreender ações militares no México e capturou em uma ação militar em Caracas o presidente da Venezuela, Nicolás maduro, levado para Nova York para a responder a acusações de narcotráfico, que ele rejeita.

    Michael Soto, chefe da polícia investigativa da Costa Rica, afirma que o país é, em muitos aspectos, vítima do aumento da produção de cocaína na América do Sul. A Colômbia tem dificuldade em limitar as plantações de coca em meio aos esforços para consolidar acordos de paz com grupos rebeldes. Soto disse ainda que a Costa Rica não consegue patrulhar sozinha seu extenso litoral e precisa de maior cooperação internacional.

    O Exército costa-riquenho foi abolido após uma breve guerra civil em 1948. Agora, o país busca expandir sua força policial e intensificar a repressão em regiões como Limón. Chaves iniciou, em janeiro, a construção de um presídio de segurança máxima e frequentemente adota uma retórica semelhante à que rendeu popularidade ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

    — É uma região com muita violência — afirmou Evelyn Villarreal, pesquisadora de segurança na capital do país. — Outros países conseguiram reduzir suas taxas de homicídio. Aqui, elas continuam crescendo.

    (Com Bloomberg e AFP)

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