Divisão da direita favorece reeleição de Lula? (por Leonardo Barreto)
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Divisão da direita favorece reeleição de Lula? (por Leonardo Barreto)

Há uma boa possibilidade de a direita, ou do campo não lulista, se dividir em duas candidaturas: Flávio Bolsonaro e algum governador do PSD

atualizado

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Há uma boa possibilidade de a direita, ou do campo não lulista, se dividir em duas candidaturas: Flávio Bolsonaro e algum governador do PSD.

Entre analistas, se questiona se o fracionamento ajuda ou prejudica a tentativa de reeleição do presidente Lula. A resposta está na maneira como a disputa será realizada.

No retrovisor da direita está a última eleição presidencial ocorrida no Chile. Realizada em dezembro de 2025, José Antônio Kast, do partido Republicano, derrotou a candidata oficial, Jeannette Jara, com 58% dos votos.

Na eleição chilena, a oposição se dividiu em quatro candidaturas. Além de Kast, se candidatou Franco Parisi (Partido Popular), que ficou em terceiro lugar, com19,7% dos votos, um economista que fez campanha quase 100% digital e atrai o eleitor “nem-nem” (nem esquerda, nem direita tradicional), focando em críticas ao sistema bancário e à elite política.

Johannes Kaiser (Independente/Direita Libertária), um deputado ex-aliado de Kast que adotou uma postura ainda mais radical e libertária, obtendo 13,9% dos votos e que alcançou o eleitorado jovem e masculino que se sentia “traído” por uma suposta moderação de Kast.

Evelyn Matthei (União Democrática Independente – UDI), que foi a representante da direita tradicional/moderada (Chile Vamos) e obteve 12,5% dos votos e era considerada a favorita do PIB chileno por sua experiência como prefeita e ministra.

A divisão no primeiro turno convergiu, no entanto, para uma unidade programática no segundo turno, o que permitiu a vitória de Kast com certa tranquilidade, facilitada que foi pela rejeição imensa de Boric que foi transferida para sua candidata.

No caso do Brasil, o que se apresenta até agora é a divisão da direita em pelo menos três candidaturas: Flavio Bolsonaro, representando o movimento político fundado pelo pai, ex-presidente Jair Bolsonaro; Ratinho Jr./Ronaldo Caiado/Eduardo Leite, significando uma direita mais tradicional e tecnocrática; e Renan Santos, do MBL, que surfar na rejeição dos políticos tradicionais.

Concentrando nossa leitura apenas em Ratinho Jr e Flávio Bolsonaro por conveniência analítica, tem-se entre os dois o desenho de um clássico dilema de ação coletiva no qual há vantagem clara na colaboração, mas ela é impedida porque os atores decidem perseguir exclusivamente seus objetivos individuais e, com isso, obtém o pior resultado coletivo para ambos.

Esse cenário irá acontecer se a temperatura da disputa entre eles se elevar muito.

Em uma situação hipotética, se Ratinho Jr perceber que tem uma chance concreta de passar para o segundo turno contra Lula, pode se ver na situação de ter que atacar Flávio Bolsonaro, despertando obviamente a reação do outro lado.

O risco para a direita é o efeito desses ataques na base eleitoral dos dois candidatos. Se a coisa passar muito do tom, eleitores de Ratinho Jr, que já tendem a rejeitar Lula e Bolsonaro, podem se recusar a caminhar com Flávio em um segundo turno.

Do outro lado, apoiadores do filho 01, como é conhecido Flávio Bolsonaro, podem deixar de ir votar em um segundo turno em nome de uma rejeição a políticos tradicionais, por exemplo.

A literatura ensina que dilemas de ação coletiva como esse podem ser superados com confiança entre os agentes e estabelecimento e respeito de regras claras, previsíveis de colaboração.

Isso significa que Flávio Bolsonaro ou qualquer outro que venha do PSD firmem um pacto de convivência, estabeleçam limites que não podem ser cruzados, combinem discursos de crítica comum a Lula e tenham disciplina para seguir o plano.

O objetivo claro não é evitar animosidade entre os candidatos, algo fácil de resolver no pós-eleição, mas evitar que elas cheguem aos eleitores e criem barreiras para que simpatizante de um possa apoiar o outro candidato em um segundo turno.

Em tempo: é muito interessante que a campanha não se resuma a Lula e Bolsonaro porque essa é uma demanda do eleitorado. É seguro dizer que pelo menos 30% dos eleitores desejam ouvir alternativas e, nesse sentido, a oferta do mercado partidário se aproxima das demandas dos eleitores/consumidores com mais candidatos, como ocorreu no Chile.