Song Sung Blue: Um Sonho a Dois é o tipo de filme que cai muito bem após a enxurrada de cinebiografias musicais cheias de clichês e pouco originais que tomaram conta de Hollywood nos últimos anos – Bohemian Rhapsody;Elvis;Back to Black;Um Completo Desconhecido e Bob Marley: One Love, entre outras.
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Em princípio porque a produção de Craig Brewer(Ritmo de Um Sonho), em cartaz nos cinemas, não é um retrato sobre a vida deNeil Diamond. O trabalho, na verdade, é inspirado no documentário homônimo, lançado em 2008, que conta a história emocionante e trágica de Mike e Claire Sardina, um casal de americanos de Milwaukee que criou a banda cover Lightning & Thunder, homenagem ao cantor dos sucessos Kentucky Woman e Sweet Caroline.
Mike, combatente da Guerra do Vietnã e ex-alcoólatra, ostentava uma vasta cabeleira e costeletas espessas à la Neil Diamond. Ele tinha como missão de vida “entreter as pessoas” e encontrou em Claire a parceira ideal para realizar esse propósito. No novo filme, ambos ganham interpretações precisas de Hugh Jackman, um poço de carisma, e Kate Hudson, indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, demonstrando ter preservado a voz notável já conhecida desde Quase Famosos (2000).
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No auge do grupo, porém, Claire foi atingida por um carro enquanto fazia jardinagem na porta de casa. Ela perdeu parte da perna, teve depressão e sofreu muito com os efeitos colaterais de remédios para o tratamento. Mas, movida pelo amor, não desistiu e voltou aos palcos com o parceiro. Mike morreu pouco tempo depois, aos 55 anos, vítima de problemas cardíacos e um grave traumatismo craniano.
Muito além de ‘Sweet Caroline’
Ao abordar a força do legado musical de um artista, e não propriamente a sua vida, Song Sung Blue se destaca. O sentimento geral do longa-metragem lembra A Música da Minha Vida (2019), sobre um adolescente britânico de família paquistanesa que se apaixona pela obra de Bruce Springsteen. Outro caso parecido, mas não tão bem executado, é Yesterday (2019), que imagina um mundo no qual apenas uma pessoa se lembra das canções dos Beatles.
Mike Sardina, como intérprete e imitador, sempre quis provar o valor de seu ídolo para além do hit Sweet Caroline, faixa que se tornou um símbolo cultural dos EUA. E ele tinha razão: Neil Diamond, cantor que deveríamos valorizar mais, não brilhou só por ter uma voz poderosa, mas também mostrou ser compositor de primeira grandeza em faixas como Solitary Man, I Am… I Said, Cracklin’ Rosie, Forever In Blue Jeans e I’m a Believer (sucesso com os Monkees), unindo melodias cativantes, bem como influências que passeavam entre folk, rock e gospel, a letras capazes de abordar temas centrais na vida dos americanos comuns.
Diamond, aos 85 anos, hoje vive com a Doença de Parkinson – que forçou sua aposentaria das turnês. Frágil, ele canta esporadicamente em ações beneficentes e se mostra entusiasmado com projetos sobre sua vida. Após o anúncio da condição, ele se envolveu na produção do ótimo musical biográfico A Beautiful Noise, escrito por Anthony McCarten, um arrasa-quarteirão na Broadway que agora circula por outras partes dos EUA. Seu último álbum de estúdio, Classic Diamonds (2020), contou com regravações de seus clássicos acompanhadas pela Orquestra Sinfônica de Londres.
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Em entrevista recente ao talk show de Graham Norton, Hugh Jackman revelou ter recebido uma ligação de Neil Diamond aos prantos logo após o cantor assistir ao filme. E não é para menos: Song Sung Blue, com sua história comovente, aperta o coração do telespectador e faz jus à voz que tanto nos emociona há décadas.