A indicação do economista Guilherme Mello para uma das duas vagas de diretor do Banco Central abriu um novo foco de atrito entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad - que fez a indicação a Lula - e o presidente do órgão, Gabriel Galípolo.
PUBLICIDADE
Galípolo tem bom relacionamento com Mello; mas, segundo pessoas próximas ao BC que falaram ao Estadão sob a condição de anonimato, entende que este não é o melhor momento para se passar mensagens ambíguas ao mercado financeiro, com a autoridade monetária prestes a iniciar um ciclo de cortes de juros. O efeito da informação entre os investidores foi justamente o contrário: aumento da curva longa de juros.
A decisão final caberá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e ainda não se sabe se ele levará em conta a visão de Galípolo e do Banco Central.
Mello tem feito um bom trabalho à frente da Secretaria de Política Econômica (SPE) da Fazenda, com a elaboração de cenários e análises de conjuntura, muitas vezes acertando mais do que o próprio Boletim Focus, mas sob nenhum aspecto parece ser o nome mais indicado para assumir uma diretoria do Banco Central.
Ainda mais se ocupar a cadeira que pertenceu a Diogo Guillen, de Política Econômica - um economista de tendência liberal, formado na PUC-Rio e que foi um dos pilares da transição suave entre as presidências de Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo.
Publicidade
Mello é da escola da Unicamp, tem sido crítico da condução dos juros, e é um economista com ligações com o Partido dos Trabalhadores (PT). Foi assessor econômico do PT e elaborou a proposta econômica de Lula na eleição de 2022.
Leia mais
Guilherme Mello criticou tentativa de estimular economia apenas via política monetária em 2019
Guilherme Mello criticou tentativa de estimular economia apenas via política monetária em 2019
Nesta segunda-feira, 2, o mercado de juros passou a operar com forte alta, com o temor de que a indicação represente uma tentativa do governo de acelerar a queda da Selic, que começará em março. Em casos assim, o mercado precifica juros mais baixos no curto prazo, mas também juros mais altos no longo, por entender que haverá aumento da inflação.
Na melhor hipótese, Mello fará uma guinada no seu pensamento econômico e manterá o espírito do Banco Central de que com inflação não se brinca. Mas, ainda assim, haverá um custo reputacional para o BC, que levará tempo para ser superado. Na pior, abrirá divergências em cada voto do Comitê de Política Monetária (Copom) - o que terá como consequência o aumento do dólar, dos juros e uma piora das expectativas.
A relação entre Haddad e Galípolo já havia ficado estremecida após a proposta do governo de tributar operações financeiras com IOF, em meados do ano passado. Haddad também demorou a dar declarações de apoio ao BC na crise do Banco Master.
Ter alguém do PT dentro do Banco Central é a pior ideia que Haddad poderia ter tido neste início de 2026, prestes a deixar o cargo de ministro da Fazenda. Se ele acertou em todas as suas outras indicações, incluindo Galípolo, Paulo Pichetti e Nilton David, cometerá um grande equívoco se seguir com a ideia adiante.
Publicidade
Para o governo, ficará o risco de ver uma disparada do dólar a poucos meses do início das eleições. Para Haddad, o peso de politizar o Banco Central - o mesmo erro, aliás, que tem sido cometido pelo presidente americano, Donald Trump.