Os discursos contrastantes de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, no Fórum Econômico Mundial podem ser uma boa chave de compreensão do momento turbulento por que o mundo passa. Carney falou ontem, e Trump acaba de se apresentar em Davos nesta manhã.
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A mensagem central do primeiro-ministro canadense é de que a ordem mundial passa por uma ruptura, e não por uma transição.
No pós-guerra até recentemente, funcionou a crença de que o poder dos países estava de alguma forma contido por um conjunto de regras e práticas que limitavam a pura lei do mais forte. Carney apontou que o Canadá aderiu e se beneficiou da previsibilidade dessa ordem, mesmo sabendo que ela era parcialmente falsa, porque os mais fortes muitas vezes faziam prevalecer sua vontade sobre as regras.
Essa ordem estava ligada à hegemonia dos Estados Unidos, que garantia do transporte marítimo à estabilidade financeira e segurança coletiva. O Canadá, como outros países, cumpria os rituais da ordem global e fazia vista grossa para os desvios.
A mensagem de Carney é de que essa estratégia não funciona mais.
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Segundo o primeiro-ministro canadense, recentemente "as grandes potências começaram a usar a integração econômica como armas, tarifas como poder de barganha, infraestrutura financeira como coerção e cadeias de valor como vulnerabilidades a serem exploradas".
Ficou claro que a referência é à relação econômica entre Estados Unidos e Canadá. Com o Nafta, a economia canadense integrou-se em nível extenso e profundo com a do seu parceiro maior ao sul. E Trump vem explorando esse fato na sua guerra tarifária para hostilizar e ameaçar o Canadá.
Carney defendeu que potências médias como o Canadá (e o Brasil), nessa nova desordem mundial, nem se curvem às superpotências nem se fechem em si mesmas, mas tentem alavancar o seu poder se unindo (não no sentido de formar apenas um bloco único, mas de ter a versatilidade de criar coalizões para objetivos específicos).
Como apontou o primeiro ministro, "coalizões diferentes para temas diferentes, baseadas em valores e interesses comuns". Para ele, essa postura combina princípios e pragmatismo.
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Na sua fala desta manhã em Davos, Trump disse que não vai usar a força contra a Groenlândia, o que provocou uma reação de alívio político e até nos mercados.
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Mas é exatamente aí que melhor se encaixa o discurso de Carney. A simples prepotência - inimaginável até muito pouco tempo atrás - de Trump de exigir negociações imediatas sobre a Groenlândia, um território estrangeiro, e ter que dizer que descarta o uso da força para que o mundo se alivie já é um sinal muito claro da ruptura a que se referiu o primeiro-ministro do Canadá.
A lição de Carney é que as potências médias e os países em geral não devem se deixar iludir por esses momentos supostamente benevolentes da superpotência que já não cumpre as regras globais de boa convivência. O momento é de se preparar para esse mundo mais hostil, com políticas econômicas domésticas de alta qualidade e a disposição de negociar múltiplos acordos que reforcem a posição de cada país diante da ação sem freios das grandes potências.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/1/2026, quarta-feira.
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