Ao longo da última semana, a obsessão de Donald Trumpcom a Groenlândia suscitou um monte de teorias sobre a origem de seu interesse no território autônomo dinamarquês. Aqui vão algumas, das mais sérias às mais estapafúrdias.
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Independentemente de quais sejam as razões do presidente americano, ou se seus aliados apenas estão trabalhando em dar um verniz racional a seus impulsos, o fato é que ninguém entendeu melhor o modus operandi de Trump do que o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.
Desde o ano passado, a política externa do presidente americano tem usado coerção tarifária para enfraquecer a seus principais aliados no Ocidente e sepultar a chamada ‘ordem mundial baseada em regras criada após 1945′.
Em um discurso bastante aplaudido no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Carney argumentou que o status quo pós-1945 era uma ilusão que só funcionava porque todo mundo acreditava nela.
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As tais regras, diz ele, funcionavam mais para um do que para outros, e conforme a conveniência de quem dita como a banda toca.
Carney tem razão. Para ficar num exemplo, o Ocidente condena ditaduras não alinhadas a seus interesses, como na Coreia do Norte, mas frequentemente fecha os olhos para facínoras em regimes aliados, como na Arábia Saudita.
Ou como teria resumido Franklin Delano Roosevelt sobre Anastasio Somoza, o antigo ditador nicaraguense: “É um fdp, mas é o nosso fdp".
O método Trump
Mas Trump implodiu esse faz de conta ao agir como um mafioso em suas relações com o resto do mundo. Foi o que ele fez com a Groenlândia. Tentou coagir os europeus por meio da imposição de novas tarifas para conseguir o que ele quer.
A reação ruim dos mercados provavelmente fez Trump desistir das tarifas, mas a extensão do acordo discutido com a Otan sobre a Groenlândia ainda não está clara, nem se ele, de fato, será assinado.
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Um caminho para o Brasil
Em seu discurso em Davos, Carney disse que a atual crise precipitada por Trump representa uma oportunidade para o que ele chamou de potências médias.
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Segundo o premiê, elas devem se unir e se fortalecer para oferecer um contraponto às potências hegemônicas, usando seus pontos fortes para fazer uma espécie de hedge contra os movimentos agressivos, tanto da Casa Branca, quanto da China.
O Canadá, lembrou ele, conta com vastos recursos energéticos e minerais, conta com uma população com um bom nível educacional e pode, com isso, atrair investimentos importantes.
O Brasil, se almejar se estabelecer como potência média, deve seguir a receita de Carney. Temos, assim como o Canadá, vastos recursos energéticos e minerais. Somos líderes em produção agropecuária, biodiversidade e temos um dos maiores mercados consumidores das Américas.
Ilusões anti-imperialistas
A velha ilusão anti-imperialista do Sul Global pode ser prejudicial neste novo mundo. A China, por mais que fale em multilateralismo, tem sonhos tão hegemônicos quanto os americanos. Nesse sentido, os Brics sob comando de Pequim não são uma alternativa segura para o País.
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Em paralelo, Trump passará, mas deixará de legado um Partido Republicano reformulado à sua imagem e semelhança, e, o governo Biden mostrou que os democratas ainda estão presos à nostalgia de um mundo que não existe mais.
A nossa política externa deve acordar para o fato que instituições criadas em 1945 e a dicotomia entre esquerda e direita não oferecem respostas para os movimentos que se avizinham.
Precisamos nos juntar a esse clube de potências médias proposto por Carney. Assim como a Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, temos pela frente o que parece ser uma espécie de novo Movimento dos Não Alinhados para uma Nova Guerra Fria, e poderia incluir ainda países como o México, a Índia, e a Indonésia.