No “Estadão Analisa” desta quinta-feira, 22, Roseann Kennedy fala sobre a investigação do Banco Master e os impactos no BC. Crédito: TV Estadão
ENVIADO ESPECIAL A DAVOS - O mercado financeiro e de investimentos se modernizou muito desde a criação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), há 30 anos, mas a regulação não acompanhou essa evolução, na visão do presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho. “Defendemos as mesmas regras para todos os participantes”, disse com exclusividade ao Estadão/Broadcast em Davos, onde conta que notou muito interesse em entender o que acontece do ponto de vista institucional no Brasil neste momento.
Maluhy avalia que há uma assimetria importante hoje no mercado, em que as distribuidoras e plataformas, que contribuem pouco para o FGC, ganham muito vendendo ativos sem a devida curadoria. E, quando há um problema, são os bancos que têm de arcar com as perdas. Por isso, ele defende regras mais duras para plataformas e distribuidores de produtos. “Plataformas podem viabilizar negócio insustentável se estimular a venda na garantia do FGC.”
Para 2026, Maluhy não vê um cenário de “deterioração profunda” no crédito, e nem uma bolha na inteligência artificial. Argumenta sobre a necessidade de o Brasil tentar conter a disparada da dívida pública, passo essencial para o país atrair investimentos produtivos de longo prazo, e não só o capital mais oportunista de curto prazo. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.
Não estamos vendo um cenário de deterioração profunda no crédito, embora tenha alguns indicadores em que alguns portfólios, alguns produtos específicos, têm tido um aumento de inadimplência. Parte tem a ver com a mudança regulatória, mas parte são sinais de uma piora em algumas carteiras, em alguns públicos específicos. Já percebemos um aumento da inadimplência, mas são segmentos onde a gente é menos relevante.
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Não vemos nenhum credit crunch (aperto no crédito), nem um cenário mais agudo, mas tem algumas empresas e alguns setores que, naturalmente, ficam mais pressionados. O Banco Central tem feito um esforço importante de contenção da inflação, e está ganhando o jogo, mas o Brasil vem trabalhando com nível de juros real muito elevado, e isso pressiona as empresas. Então, vai depender muito da velocidade com que esses juros vão se reduzir.
É um evento de dimensão muito relevante. Estamos falando, até o momento, de algo por volta de R$ 55 bilhões, se você somar o Master e o Will Bank. Mas é um evento aparentemente isolado, com ramificações dentro daquilo que já foi divulgado. Não vejo como uma crise no sistema financeiro, de forma alguma, embora a dimensão do evento seja de grande materialidade.
O FGC foi criado em 1995, depois da crise bancária dos anos 90. Nasceu com o objetivo de proteger o depositante e o investidor. Ao longo dos anos, o mercado de captação e de investimento no Brasil se modernizou muito. Mas a regulação não acompanhou a inovação. É natural que tenha um atraso. A inovação costuma vir na frente e a regulação depois. Nesse caso, acho que a regulação demorou muito para evoluir. O que abre espaço para situações como a que estamos experimentando agora.
Tem um emissor captando a taxas muito acima de mercado e pagando aos distribuidores comissões desproporcionais. O distribuidor acaba enchendo o copo na frente dos bancos, que estão captando a taxas competitivas e de mercado para fazerem ativos a preços corretos e no risco certo.
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Aqui claramente tem uma assimetria, porque havia um incentivo para os distribuidores venderem o CDB para ganhar altas comissões, oferecendo taxas que são fora de mercado. Aí os problemas aparecem no médio e longo prazo. E quem contribui e paga no final do dia os recursos no FGC tem uma relação direta com o tamanho da sua base de depósitos. Então, tem uma assimetria que alguns distribuidores veem a receita da distribuição, ficam com a comissão e quando tem algum problema (não arcam na mesma proporção).
Tenho visto o Banco Central muito preocupado com esse tema. Ele precisa trabalhar em encontrar mecanismos para cuidar do tamanho de alavancagem que um banco pode ter em relação ao seu patrimônio em depósitos de FGC. Quando a gente falava dos riscos do FGC, muitas vezes parecia que era uma agenda anticompetição, nunca foi.
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Que os distribuidores passem também a participar do arranjo, de tal sorte, que eles têm incentivos para não distribuir o produto errado, no preço errado, e única e exclusivamente porque tem comissões importantes. Ganham na distribuição a comissão primária, ganham no spread, na recompra dos produtos, dos clientes, e depois, quando o recurso volta, eles retroalimentam a máquina dentro dessa lógica. A responsabilidade é de todos. Mas claramente aqui houve excessos. Um único evento não pode comprometer R$ 55 bilhões do fundo, claramente tem algo errado.
Eles contribuem hoje muito pouco, a maioria deles, porque a parte de depósito proprietário é muito pequena. Está distribuindo um ativo de outro banco. Então, essa é a assimetria, porque se der um problema na indústria, os grandes bancos que têm base de depósito é que vão pagar essa conta no final do dia. Se houvesse um grau de responsabilidade adicional de curadoria mais forte, a gente provavelmente não teria um problema dessa magnitude. Acho que é de interesse do sistema financeiro que excessos como esse não aconteçam novamente.
O ponto central é que seja feita de forma inteligente, minimizando o impacto para o setor, porque dependendo do impacto, quanto mais alto for, o custo do dinheiro aumenta. E em momento de juros altos, acaba onerando o consumidor e as empresas. Existem mecanismos para fazer isso, que estão em discussão, não existe ainda uma definição clara. Nossa visão é que, no curto prazo, venham essas definições de como o fundo e o saldo vão ser recompostos.
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Acho que existem mecanismos para que você mobilize o caixa no curto prazo e dilua os impactos contábeis no médio prazo. Temos de encontrar algo que atenue ao máximo os efeitos para não onerar o sistema e que, ao mesmo tempo, dê a segurança de que o fundo tem capital suficiente, tem liquidez suficiente. Não queremos que fique a sensação de que o fundo está descapitalizado e que, portanto, as captações novas com garantia do fundo têm um risco adicional.
Os pagamentos estão começando a acontecer agora. Então, não dá para sentir. Espero que o mercado tenha aprendido. Vai voltar um volume importante. Acho que algumas das mudanças que já foram feitas vão inibir novos eventos como o que ocorreu.
O Banco Central tem uma experiência de décadas em conduzir, esse não vai ser nem o primeiro nem o último caso de liquidação bancária no Brasil. Uma das fortalezas do Brasil é um BC forte, com boa reputação e independência. E quando a gente fala com os investidores aqui em Davos, há muito interesse em entender o que está acontecendo do ponto de vista institucional no Brasil, muitas perguntas sobre o tema, mais do que eu imaginava, investidores até mais distantes querendo entender. Mas há uma confiança muito grande no sistema financeiro nacional, especialmente no papel do BC, que tem uma reputação internacional muito forte. Então, é importante respeitar a autonomia do regulador. O importante é que as instituições funcionem e que os mandatos sejam preservados. O que não pode é ter a autonomia do BC sendo questionada e nem a capacitação técnica.
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A geopolítica e o tema geoeconômico foram dois tópicos centrais do Fórum. Há um mês, provavelmente a discussão seria em cima de Venezuela, depois Irã, e o grande tema foi a Groenlândia. Tinha uma expectativa grande da vinda do Donald Trump, houve certo alívio nos mercados depois do discurso. A principal razão é porque ainda havia uma preocupação se se poderia haver uma invasão militar na Groenlândia, o que foi descartado por Trump. E uma outra agenda central aqui nos debates é a agenda de tecnologia, da inteligência artificial.
Tem grandes investimentos sendo anunciados, os grandes líderes de tecnologia dizendo que acreditam que não é uma bolha, porque eles percebem que essa tecnologia está escalando, que os consumidores estão se apropriando e se beneficiando. Nossa visão é que é uma transformação estrutural para valer, seria uma bolha se fossem grandes investimentos, em que essas empresas de tecnologia estivessem colocando muitos recursos, mas que no final do dia isso não estivesse se traduzindo em demanda pelos clientes, e que isso não estivesse sendo escalado globalmente.
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Estabilizar o crescimento da dívida é um tema central nas conversas, muita dúvida sobre o ambiente fiscal e o endividamento do Brasil, que cresceu 12 pontos porcentuais nos últimos 4 anos, considerando já as projeções para 2026. Precisa fazer uma reforma orçamentária claramente. Acho que nos próximos meses vai ter muita atenção sobre qual vai ser o plano de governo, equipe econômica, quais são os objetivos que cada candidato vai colocar, o mercado vai estar muito sensível a esse tipo de informação.
Mais do que atrair o capital de curto prazo, que o Brasil tem capturado na realocação global de carteiras, o que a gente precisa agora é ganhar nos investimentos estruturantes e de longo prazo, trazer o investimento produtivo para o Brasil. Olhando para frente, precisa fazer uma reforma orçamentária, para ganhar mais flexibilidade. Precisa criar condições para que o ajuste seja feito muito mais pelo gasto do que pela receita. É preciso fazer com que o Brasil também seja competitivo, para ganhar com toda essa tensão geopolítica e mudança das cadeias produtivas.
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