Crédito: Larissa Burchard e Beatriz Souza/Estadão
O depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro, CEO do banco Master, à Polícia Federal revela que sua estratégia de defesa é negar os crimes e culpar os outros; no caso, o Banco Central, os grandes bancos e até a mídia. Publicamente, Vorcaro admitiu o que já era mais do que sabido: a estratégia de crescimento do Master combinava captar recursos a taxas elevadas, empurrando o risco para o Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
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Vorcaro afirmou que o Master só passou a ter problemas de liquidez em virtude de uma perseguição perpetrada pelos maiores bancos, que fecharam para ele o acesso às plataformas de investimento, que vendiam os seus CDBs para o público em geral, e pressionaram por mudanças no FGC.
Foi nesse momento em que começou a perder liquidez que o Master se aproximou do Banco de Brasília (BRB) e também passou a vender Letras de Crédito Financeira para fundos de pensão. Segundo Vorcaro, o BRB já vinha comprando carteiras de crédito do Master desde julho de 2024, e nenhuma dessas carteiras vinha apresentando problemas, ao contrário, geraram lucro.
O problema foi que a partir de janeiro de 2025 o Master ficou ainda mais estrangulado e, para não correr o risco de sofrer uma intervenção do Banco Central, passou a comprar créditos consignados de terceiros e revendê-los com um “prêmio”, ou seja, um lucro para o banco. A primeira compra foi feita de uma empresa chamada Tirreno, criada no mês anterior, em dezembro de 2024.
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A Tirreno tem como dono o empresário Henrique Peretto, que é sócio em outra empresa de crédito, a Cartos, com a qual o Master já tinha negócios. Segundo Vorcaro, por conhecer Peretto, o banco não se preocupou em verificar a fundo a solidez dos contratos de crédito consignado da Tirreno. “Foi mais pela pessoa do que pela empresa”, disse. E que ele era o CEO do Master, aprovava decisões estratégicas, mas não tinha capacidade técnica para perceber que a documentação desses contratos era falha.
“Eu, como presidente, obviamente não entrava nos detalhes, seja da originação, seja de qualquer questão operacional do consignado”, disse.
Esses contratos foram sendo comprados e revendidos ao BRB, a partir de janeiro de 2025, e chegaram a representar 80% da entrada mensal de recursos novos do Master. Ou seja, passaram a ser o principal suporte de liquidez do banco.
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O Banco Central, que já vinha acompanhando o Master com atenção, percebe essa transfusão de liquidez entre os bancos e aperta a fiscalização, sob a diretoria de Ailton de Aquino. Nesse ponto, há uma contradição no depoimento: ao mesmo tempo em que critica o Banco Central e diz que o BC é o principal culpado pela liquidação do Master, ele afirma que o BC acompanhava tudo de perto e que nada foi feito à sua revelia.
“Não tinha nada que acontecesse no banco que o Banco Central não acompanhasse ou que não soubesse”.
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Essa afirmação reforça a tese do próprio Banco Central e desfaz o processo no Tribunal de Contas da União, sob relatoria do ministro Jhonatan de Jesus, que ameaça o BC de ter se precipitado. Ao contrário, as possibilidades foram esgotadas.
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Quem entende um pouco de setor financeiro sabe que o papel do Banco Central é procurar a saída menos custosa para o sistema. A liquidação, portanto, é a decisão mais extrema, quando todas as soluções já foram descartadas e o banco é forçado a fechar. Por isso, a entrada do BRB ou de qualquer outro banco comprando ativos do Master poderia ser uma saída, e a diretoria de Fiscalização, de Ailton de Aquino, por dever de ofício, acompanhou as tratativas.
Mas o cenário mudou de figura, quando o Banco Central, no dia 17 de março de 2025, enviou uma notificação ao Master pedindo mais detalhes sobre os contratos de crédito consignados e a Tirreno. Faltavam documentos, que passaram a ser exigidos pelo BC tanto ao Master quanto ao BRB, que os comprou.
Aqui entra outro ponto importante do depoimento: mesmo tendo sido alertado dessa falta de documentação, o Master comprou mais R$ 2,3 bilhões desses contratos, os revendendo ao BRB. Para Vorcaro, isso ainda não era “um problema”.
“Ainda não era um problema. Era uma primeira notificação, uma tentativa de resolver o problema, porque não era interesse, no primeiro momento, nem do Master nem do próprio BRB, o desfazimento naquela altura”.
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Mas o problema chegou a R$ 12 bilhões. O crédito usado pela Tirreno tinha sido originado pela Cactos, e a Cactos negou que tenha repassado esses créditos para a Tirreno. Ou seja, o Master vendeu contratos que já haviam sido vendidos antes a outros dois fundos de investimentos. E recebeu R$ 12,2 bilhões de recursos do BRB, sendo R$ 6,7 bilhões em créditos e R$ 5,5 bilhões em prêmios (lucros). Quando o BC percebe o furo, Master e BRB são obrigados a desfazer a operação, a partir de julho. Se o BC liquida o Master neste momento, o BRB é arrastado junto.
Na visão de Vorcaro, por sua vez, como esses créditos podres foram trocados por outros ativos nos meses seguintes, e com garantias que chegavam a R$ 22 bilhões, o crime de fraude não chegou a ser consumado. Ele também alega que o BRB não teve prejuízo com o negócio e a liquidação foi uma “surpresa” em novembro.
Sobre suas relações políticas, o banqueiro cita apenas o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e que teriam ido um na casa do outro para conversar sobre o negócio.
Em resumo, para Vorcaro, o Master é a vítima do processo. Um banco pequeno que tentava virar médio, e que passou a ser perseguido pelos grandes. Cometeu um pequeno deslize de vender carteiras podres ao BRB, mas porque foi enganado pelo Tirreno e não sabia de nada. Como desfez a operação, não houve crimes, e a sua prisão comprovaria que não tem amigos influentes em Brasília.
Resta saber se alguém irá acreditar nesta história.
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