Oinegue: Jornalismo é publicar o que não querem que seja
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Oinegue: Jornalismo é publicar o que não querem que seja

Com ampla experiência em grandes coberturas, Oinegue traz análises do cenário político atual e refle...

A liberdade de imprensa está no coração da ordem democrática. Aí um jornalista publica uma notícia sobre um carro e recebe visita da Polícia Federal para cumprir uma ordem de busca e apreensão.

Uma ordem que parte de um pedido do ministro Flávio Dino, e percorre... Procuradoria-Geral da República, passa pelo Cristiano Zanin, daí vai parar nas mãos do Alexandre de Moraes, que manda fazer a operação. O jornalista, a quem eu não conheço, Luís Pablo Conceição Almeida, mantém um blog no Maranhão.

Aí em novembro do ano passado, olha lá, hein, ele publicou uma reportagem dizendo que familiares do ministro Flávio Dino usavam um carro blindado do Tribunal de Justiça do Maranhão, não do Supremo. Tem imagem, tem detalhe, tem documentação. A reportagem não foi desmentida. A assessoria do Dino não desmentiu. Poderia ter reclamado, poderia ter feito um pedido de direito de resposta, sei lá baseado em quê, mas o fato é que veio um ataque da mão pesada do Estado contra quem fez o certo: noticiar o que ele entendeu que era esquisito, que era o uso de um carro oficial por familiares do ministro.

Aí, para isso, o Dino acionou a Polícia Federal. A Federal foi até o Supremo. A Procuradoria disse que tinha elementos fortes de irregularidade... do ministro? Não, do jornalista!

O Cristiano Zanin recebeu o caso, podia ter encerrado, redistribuiu, foi parar no Alexandre de Moraes. Ele assina uma ordem de busca e apreensão. Aí agora, no dia 10 de março, a Polícia Federal vai na casa do Luís Pablo e leva computador, celular.

Qual foi o crime que ele cometeu? Tá lá escrito: perseguição. Stalking. Uma lei que foi criada para proteger vítimas de assédio obsessivo prevê essa lei. O jornalista que publicou uma reportagem sobre o carro oficial do ministro é um stalker? E o ministro do STF que fez essa confusão e usou o peso do Estado é a vítima?

Isso é uma inversão. Inversão de fato, inversão da lógica. O jornalista escreveu que ele conseguiu apurar com provas, imagens, documentação, como eu disse. Daí não dá para desmentir a reportagem. Aí fica em silêncio também, é chato. Aí o poderoso partiu para cima. O poder veio. Procuradoria, que poderia ter encerrado. Cristiano Zanin, que poderia ter rejeitado a tipificação, porque, pelo amor de Deus, não faz sentido falar em stalking em lugar nenhum do mundo, nenhum Tribunal de Justiça vai dizer que isso faz sentido. Aí ele lava as mãos, passa para o Moraes, que poderia ter negado.

George Orwell disse: 'Jornalismo é publicar o que alguém não quer que seja publicado. O resto é propaganda'. Foi jornalismo o que fez o Luís Pablo. Só que aí o Estado foi na casa dele pegar os instrumentos de trabalho.

Um juiz da Suprema Corte americana já disse: 'A imprensa existe para servir os governados, não os governantes'. Flávio Dino, Alexandre de Moraes, indiretamente o Zanin, decidiram o contrário. A liberdade de imprensa não é o direito de publicar o que o ministro aprova. Se fosse, não seria liberdade, seria licença. E licença é algo que você concede e pode revogar. E isso o poder não pode fazer. Não pode ficar assim. Onde isso vai parar?