Opinião | Em nome do pai: Como os filmes do Oscar 2026 problematizam e colocam a figura paterna na berlinda
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Opinião | Em nome do pai: Como os filmes do Oscar 2026 problematizam e colocam a figura paterna na berlinda

O texto a seguir contém spoilers sobre os filmes

Um cineasta deseja que sua filha, atriz, seja protagonista do seu próximo filme, mas ela se recusa pois sentiu-se abandonada na infância. Um dramaturgo se ocupa mais de sua arte que de sua família; quando um dos meninos morre, a culpa recai sobre a família. Um revolucionário aposentado é pai solo e um tanto desleixado, mas quando sua filha adolescente entra em perigo, ele sai da sua inércia para tentar salvá-la. Um professor universitário perseguido volta para sua cidade natal em busca do filho pequeno, que vive com os avós.

Se você está ligado na entrega do Oscar 2026, que acontece neste domingo, 15, a partir das 20h, em Los Angeles, deve ter reconhecido em algumas dessas tramas os principais concorrentes à estatueta. O relacionamento, muitas vezes conflitivo, entre pais e filhos, comparece, de forma central, ou lateral, no enredo de alguns dos principais concorrentes. Está no cerne do norueguês Valor Sentimental, de Joachim Trier, e do britânico Hamnet - Antes de Hamlet, de Chloé Zhao. Tem papel importante nas motivações de Leonardo DiCaprio, o guerrilheiro aposentado que vive com sua filha em Uma Batalha após a Outra, de Paul Thomas Anderson.

Confira o trailer de 'Uma Batalha Após a Outra'. Crédito: Divulgação/HBO Max

E ocupa também papel importante no multifacetado O Agente Secreto, história do pesquisador que volta ao Recife para se encontrar com o filho pequeno, que vive com os avós desde a morte da mãe. O desfecho de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, quando, anos depois, o filho, já crescido e tornado médico, mostrará um misterioso desinteresse por aquela figura paterna que, nos distantes anos 1970, tinha arriscado a pele para encontrá-lo, é um dos pontos mais enigmáticos em uma história cheia deles.

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Esses filmes estão aí por algum motivo, juntos para disputar a mais cobiçada premiação do cinema mundial, ou tudo seria mera coincidência? Como nem sempre dá para entregar tudo nas mãos do acaso, essa insistência no debate sobre a figura paterna pode ser sintoma de alguma coisa. Talvez de que essa figura esteja, de alguma forma, na berlinda, junto com a contestação do patriarcado?

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    Pode ser. Mesmo porque, olhando-se mais de perto, essa questão parece presente, ainda que de forma indireta, em outros concorrentes do Oscar 2026. Por exemplo, no controverso Sirât, de Oliver Laxe, em que um pai (Sergi López) joga-se na perigosa busca de uma filha desaparecida em companhia do filho menor. Busca que terá consequências trágicas, como sabe quem viu o filme.

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    Esse fator da função paterna pode ter um sentido apaziguador quando, no trepidante Marty Supreme, de Josh Safdie, o competitivo mesatenista vivido por Timothée Chalamet só parece encontrar alguma paz e emoção verdadeira ao contemplar no berçário o filho recém-nascido.

    Ou pode ser uma espécie de sombra, a evocação triste dos gêmeos de Pecadores (ambos interpretados por Michael B. Jordan), de Ryan Coogler, quando se lembram do pai alcoólatra e violento que os fez fugir de casa.

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    Confira o trailer de 'Pecadores'. Crédito: Divulgação/HBO Max

    No belo Sonhos de Trem, de Clint Bentley, sugere-se uma sutil recuperação da imagem do pai. O personagem é o lenhador solitário vivido por Joel Edgerton que, mesmo assim, consegue constituir uma família. A tragédia o atinge, mas depois ele tenta, no desespero talvez, uma recuperação de si mesmo como figura paterna. Não vale dar spoiler de como isso acontece, mas se trata de algo comovente.

    Filme dirigido por Clint Bentley é baseado em romance escrito por Denis Johnson. Crédito: Divulgação/ Netflix

    Patriarca provedor, opressor e ponto estável

    De qualquer forma, a figura paterna aparece nos concorrentes do Oscar de forma, digamos, “problematizada” e não inabalável, como na vigência de patriarcado mais sólido. Mesmo em obras críticas, o pai figura como ponto estável, ainda que castrador, no sentido psicanalítico do termo. Filmes como o brasileiro Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, baseado em Raduan Nassar, ou o italiano Pai Patrão, dos irmãos Taviani, mostram esse patriarca provedor e opressor - e, através do olhar dos filhos e filhas, sugere os estragos que era capaz de causar.

    Desse velho patriarcado há o paradigma de Don Vito Corleone, criação genial de Marlon Brando em O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. Descontado o fato de ser um capo mafioso, Don Corleone representa o protótipo do chefe de uma grande família, em termos tradicionais. Não é ostensivamente opressor, porque nem precisa. É a última palavra, inquestionável, para todos que vivem à sua sombra. Ou sob seu comando. Empregados, subordinados, capangas, mas também filhos e a própria esposa.

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    Don Corleone é o centro de tudo, um ponto de referência absoluto. Um sol ao redor do qual todos orbitam. Mas também é humano. Adoece, envelhece, sofre um atentado. Os tempos são outros e talvez ele não esteja tão preparado para eles. Tempo de passar o bastão. Para quem? Para o filho, e justo para aquele que parecia menos preparado para dar continuidade ao projeto de poder familiar - Al Pacino, no papel de Michael. Justo o filho que não queria seguir o caminho do pai, mas irá fazê-lo e talvez adequá-lo aos novos tempos. A saga familiar continua de pé e o pai, seja ele qual for, será sua figura central. Até ser abatido pela tragédia, o que só acontecerá no terceiro opus da saga.

    Na época em que a história se passa e também naquela em que o primeiro filme da trilogia dos Chefões foi lançado, 1972, essa figura paterna dominante parecia não apenas aceitável, mas algo tão natural quanto o nascer e o pôr do sol. O fato de Vito Corleone ser chefe de uma quadrilha criminosa desaparecia diante dessa figura idealizada de “paizão” dominador, justo e super poderoso.

    Talvez esses filmes indiquem um ponto de chegada, quando o patriarcado e seu fundamento, a masculinidade tóxica, tiverem sido por fim desconstruídos. Mas quem conhece o futuro? Quem pode dizer até onde esse processo de desconstrução é capaz de nos levar em termos subjetivos?

    Enquanto não encontramos respostas para perguntas que talvez não tenham respostas, cabe notar que o questionamento da figura paterna tradicional é um fato incontornável dos nossos dias. Como antena sensível, o cinema capta seus sinais e mesmo suas contradições. Sem dar respostas, porque ninguém as tem.

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